30 Explore a sexta capa da Numéro Brasil ON PEOPLE, com Luisa Meirelles.

Explore a sexta capa da Numéro Brasil ON PEOPLE, com Luisa Meirelles.

Moda

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Luisa Meirelles (@luisameirelles) na sexta capa da “Numéro ON PEOPLE”.

Nossa edição digital é um espaço dedicado a pessoas que estão redefinindo os contornos da cultura contemporânea, de nomes já consagrados à vozes emergentes. Pessoas que, aos olhos da Numéro, se destacam não só pelo que fazem, mas por como fazem.

Foto: Lucas Quintanilha (@lucaslqn). Direção: Giovanni Frasson (@gfrasson). Direção Executiva: Alexandra von Bismarck (@alexvonbismarck).
 

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Parece que já se vai uma vida desde que Luisa Meirelles se instalou no lado direito do Oceano Atlântico, e a história de amor com a terra do bonjour apenas começou a despertar nela uma nova versão de si mesma. Mais do que aquela que inventa moda há dez anos, à frente da marca que leva seu nome (tocada com a mãe e a tia, uma declaração assumida da força feminina), Luisa se descobre au jour le jour mais cantora, mais compositora, mais amiga do violão.

 

Não é que a França, onde ela mora desde 2022, tenha feito surgir nela uma Louise. La France deu a essa capixaba o espaço para expressar quem ela é. E o Brasil segue afirmando dentro dela que Luisa jamais será française, e tant mieux.

 

A seguir, trechos de uma conversa que mistura idiomas e confissões de uma vida livre entre dois continentes:

 

O que trouxe você para a França?

A França sempre me atraiu no sentido da imagem do feminino. Eu vim para cá buscando um pouco disso, me permitir ser uma versão de mim que no Brasil eu não conseguia expressar. Eu amo profundamente o meu país, mas, como mulher, me sentia objetificada, estereotipada, reduzida a um corpo. E não apreciada como uma inteligência. Vim para cá para ser mais ser humano, menos mulher.

 

Não teve um tanto da moda nessa decisão?

Sim, meu nome já era uma marca e o estilo francês — essa elegância, essa delicadeza, essa beleza não tão proposital, não tão trabalhada, que tem uma verdade mais crua — foi o início da minha história com o país. Quando cheguei aqui, isso se aprofundou tanto que precisei me expressar de uma nova forma. Até que veio a música, um lugar totalmente instintivo da minha experiência feminina. Gosto muito de falar que são músicas que escrevo e canto enquanto mulher, sobre o que sinto e acredito ser importante.

 

Julian Belle, seu namorado, é músico. O quanto isso foi determinante para você?

Esse encontro, há um ano, acabou na minha primeira composição, que lancei há pouco: "Flerte Teimoso". Nela, exploro a minha sensualidade, porque a cultura aqui me permite isso. Na França, eu posso teimar no flerte. Amaria viver num mundo em que nós, mulheres, pudéssemos expressar com liberdade e segurança o nosso desejo, que é uma potência criativa.

 

O que do Brasil você colocou na sua expressão francesa?

Ah, no Brasil tudo é muito sensual, espontâneo, aberto para a vida. Para as mulheres francesas com quem convivo, digo que é gostoso lembrar desse lugar: vamos rir, vamos dançar, vamos mexer o nosso corpo, vamos nos sentir lindas e usar isso, o que também é um poder. A experiência franco-brasileira une esses dois espaços: eles se completam. Amo viver aqui enquanto brasileira.

 

Isso deve fazer um bem enorme para as francesas. Porque, no fim, elas também estão presas em estereótipos. Outros, claro, mas ainda estereótipos.

Aqui é tudo mais contido, sério, é um outro tipo de limitação. No Brasil temos espaço para brincar. Eu costumo dizer que o Brasil é a criança, e aqui é o adulto, mas é impossível viver só como um dos dois, sabe? O adulto vai falar "não, você não vai agir dessa forma"; a criança lembra que a gente não sabe de nada, vamos existir no aqui e agora e entender aonde isso vai nos levar também.

 

Julian é baterista, mergulhado na música brasileira. Foi ele quem te fez soltar a voz?

Ele me incentivou muito, mas a verdade é que eu cresci numa família musical. Principalmente vindo do lado do meu pai, que tinha um gosto sofisticado para a música brasileira, a bossa nova, os clássicos. Ele cantava muito pra mim, botava a música no volume máximo. Ele dizia que o único jeito de ver Deus é escutando música. A minha forma de cantar, de acompanhar com essa emoção que a voz traduz, vem um pouco daí.

 

Você tinha consciência da sua voz?

Desde sempre. Meus pais me deram um rádio com microfone, e eu vivia performando. Minha mãe tem vários vídeos meus cantando. Na escola, eu me apresentava nas mostras culturais, fazia paródia dos Beatles, escrevia letras... Mas eu não me reconhecia como artista. Eu me reconhecia num lugar mais de business, tipo "eu preciso fazer".

 

Muito nova para sentir essa pressão...

Do meu pai, eu recebi a liberdade de sonhar, de construir tudo o que eu quisesse, tudo o que eu desejasse. Minha mãe foi extremamente revolucionária e livre das amarras: 100% feminista não teorizada, já nasceu tipo a onça pintada da selva. Quando eles se divorciaram, eu tinha 15 anos e me confrontei com o real espaço social da minha mãe enquanto mulher. Ela queria viver sozinha, viajar, ocupar os lugares que ela desejava, conquistar independência financeira. Isso me deu uma sede muito grande de ganhar a minha grana.

Como artista, eu não sabia se conseguiria. Então, tive essa trava e hoje, na verdade, é a minha grande liberdade. Construí a marca, conquistei a minha independência financeira com ela, e essa segurança é a base para eu poder voar e ser dona do que eu quero construir. Também produzi minhas músicas e investi no meu projeto. A marca me proporciona isso.

 

É bem a metáfora de você ter sua própria voz no mundo.

Exatamente. Tenho liberdade para fazer as escolhas que eu quero, para amar quem eu quero, criar da forma que quero, usar a minha voz. Acho isso muito bonito.

 

Como foi a passagem desse lugar bem material, do negócio, para o lado criativo, da materialização das ideias?

Tem a ver com a chegada do Julian na minha vida. Viver esse início da relação, me desfazer de coisas que eu achava que não poderiam ser desfeitas, foi uma abertura de caminho. Sou extremamente grata por isso. Era uma direção inevitável, eu sinto. E que me colocou nesse lugar que estou agora. Bem no comecinho do caminho, mas que já me satisfaz de formas inéditas. Estou bem animada.

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Foto: Lucas Quintanilha.

Tem ares de ser "tudo fácil". É isso mesmo?

Não! Demanda demais: a matéria, o investimento, o tempo. Na música, me sinto criança de novo; de uma certa forma, estou brincando. Não quero que seja uma obrigação. É difícil, porque sou capricorniana, sempre executo muito. E ter esse espaço intuitivo e libertário...

 

Como é que rolam as suas composições? São tipo descargas divinas, do céu pra caneta?

É bem isso! E para isso preciso sentir: não consigo compor histórias alheias. Tem composições que vêm nos momentos mais dolorosos, aquilo precisa sair. E outras que vêm de lugares de prazer. A música é uma flecha certeira: quando ela me atinge, não há nada mais completo.

Tem uma outra pessoa que me ajudou demais a me soltar: o Breno Viricimo, produtor e compositor. Depois de me ouvir cantar, tocar violão, ele me chamou para escrever canções, quis me apresentar para pessoas. Foi ele quem deu corpo para "Flerte Teimoso".

 

Teve dedo dele também em "Manie de toi"?

Ah, foi com o Julian. Eu mostrei para ele "Mania de você"; ele não conhecia Rita Lee e Roberto de Carvalho. Propus tentarmos uma versão em francês. Fizemos um vídeo e postamos no Instagram, e o Roberto de Carvalho viu, achou lindo e elogiou minha voz, nos incentivou a gravar dizendo que ia ser um sucesso. Graças a ele, acabamos gravando num estúdio no Rio.

 

E o que vai acontecer musicalmente para você agora?

Em junho lanço meu próximo single, "Minha Solidão", e o clipe gravado na França e no Brasil. Tem uma turnê em palácios franceses para shows privados, com uma marca franco-brasileira. Estou superanimada! Para o fim do ano, o lançamento de "Manie de toi". Ainda estou trabalhando o público. Na verdade, tudo é muito meteórico, num certo sentido. É confiar no tempo das coisas e conquistar o tempo das coisas.

 

Enquanto você não sai em turnê, vive a vidinha parisiense.

Ah, eu sou apaixonada. Não tem um dia em que acordo aqui sem dizer "que sorte estar nessa cidade". Me sinto meio que numa dança com ela. Amo ficar em casa, as janelinhas parisienses, ficar num café, fazer a minha análise toda semana num terrasse.

E é um exercício também, de chegar ali e falar: "E se eu tiver que chorar, eu choro ali no meio da cidade também", no que Paris ajuda. Porque tem um lado difícil, muito contido das pessoas, de ter que mostrar força. É uma cidade muito pouco vulnerável. Então, eu gosto de ser um corpo vulnerável na cidade.

 

Ceci ou aquilo?

 

  • Croissant ou pão de queijo?

    Croissant. São muitas camadas de manteiga, e eu sou derretida.

 

  • Amo ou j'adore?

    Amo! Não tem nada que eu ame mais falar.

 

  • Flerte brasileiro ou fierte francês?

    Flerte francês com beijo brasileiro. Eles sabem criar a tensão e esperar... E a gente sabe se entregar.

 

  • Terrasse ou praia?

    Um terrasse de frente para a praia e não se fala mais disso.

 

  • Cristo Redentor ou Torre Eiffel?

    Gosto mais de quem não é de ferro e vive de braços abertos.

 

  • Namorado brasileiro ou namorado francês?

    Um namorado francês que tenha noção da sorte que é namorar uma brasileira.

 

  • Uma mania sua x uma manie à toi?

    Mania de querer mandar em tudo e manie de conseguir o que eu quero.

 

  • Doo-bee-doo-bee-doo ou Oba lá lá?

    Eu não serei a última nem a primeira a dizer isso: o melhor swing do mundo é brasileiro.

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