26 Moda em Diáspora

Moda em Diáspora

Literatura

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Quando tinha dez anos de idade, Hanayra Negreiros passava horas explorando as caixas de fotografias onde sua mãe guardava retratos de parentes que ela nunca chegou a conhecer, mas cujas histórias a encantavam. Mais do que as feições, penteados e personalidades, eram as roupas de avós, avôs, tias e primos que atraíam a atenção daquela menina que, futuramente, seria professora, pesquisadora e curadora de arte.

 

Algumas dessas imagens ilustram Negras Maneiras de Vestir – Moda, Memória e Arte Afro-brasileira (ed. Paralela), livro no qual Hanayrá parte de sua história pessoal e de arquivos históricos do século XIX para reconstruir identidades negras invisibilizadas. Na obra, a autora destaca o vestir como um ato de resistência e preservação cultural, investigando desde a simbologia das roupas de axé nos terreiros de candomblé até as intersecções entre moda e arte no trabalho de criadoras contemporâneas como Rosana Paulino e Aline Motta.

 

Uma das mais importantes curadoras do país, Hanayra assinou projetos em instituições como o Museu de Arte de São Paulo MASP (onde atuou como curadora-adjunta de moda); o Itaú Cultural; o Instituto Moreira Salles; o Victoria and Albert Museum, em Londres; e o Museum at FIT, em Nova York. Nessa trajetória, desenvolveu o que chama de curadoria de moda em diáspora, na qual se propõe a refletir sobre a moda no interior de museus e galerias, "reconhecendo tanto a presença das peças têxteis como possíveis obras em exposição, quanto o vestir como linguagem expandida", descreve ela.

 

"Pensar uma ação curatorial a partir de um corpo negro, feminino e latino-americano como o meu é reivindicar o poder de escolher por onde seguir, o que mostrar, com quem caminhar. É um fazer que resiste às narrativas coloniais e afirma presença dentro de instituições que, por muito tempo, mantiveram essas existências à margem", declara a pesquisadora, que se aprofunda na obra por meio da entrevista a seguir.

 

No livro, você descreve seu trabalho como o de uma curadora de moda em diáspora. O que é isso?

Há pessoas que usam a palavra curadoria na função de escolher roupas para diferentes ocasiões. Meu trabalho é pensar peças para exposições em instituições de arte. Nesse contexto, entra a curadoria de moda em diáspora, pois me entendo como uma mulher afrodiaspórica. Isso passa pelas oportunidades profissionais que tive nos últimos cinco anos, levando a moda brasileira para mostras em Nova York, Arnhem [Holanda], Londres e Portugal, e que me proporcionaram aprofundar a escuta e o olhar para as relações entre a memória, o corpo e a arte dentro das experiências afrodiaspóricas.

 

Em outros países, há museus e galerias que promovem grandes exposições de moda. Por que no Brasil ainda existem tão poucas mostras dedicadas ao tema?

O Brasil ainda não compreende moda como cultura e, consequentemente, como arte. A moda ainda é tratada como algo "muito comercial". A SP-Arte é uma feira, logo, as artes visuais também estão dentro de um mercado.

 

Há acervo no país para grandes exibições de moda?

Durante a curadoria da exposição Artistas do Vestir: Uma Costura dos Afetos, no Itaú Cultural, a cocuradora Carol Barreto e eu conversamos com estilistas, e várias dessas pessoas não tinham mais as roupas que havíamos selecionado na pesquisa. Além de precisar vendê-las, algumas não têm espaço físico adequado para manter um acervo com boas condições de conservação. As pessoas que conseguem fazer isso são, sobretudo, muito ricas. Entre os museus, o MASP tem a coleção de moda mais consistente. Isso só vai mudar quando tratarmos a moda como cultura, com políticas públicas e projetos que fomentem a criação, a estruturação e a preservação das roupas.

 

Quais estratégias você desenvolveu como curadora?

A partir de pesquisas sobre as negras maneiras de vestir, é possível pensar na moda em museus e galerias, propondo, por exemplo, que estilistas criem trabalhos voltados para esses espaços, como desenvolvi no MASP. Dá, inclusive, para utilizar materiais que não estariam na passarela em roupas que não necessariamente serão vestidas no dia a dia. A gente tensiona esses campos, que podem ser muito próximos. Por outro lado, cada vez mais gente trata a moda sob a perspectiva da manifestação artística. No quarto capítulo do meu livro, escrevo a respeito do conceito em costura.

 

O que é esse conceito?

Analisando a moda sob a perspectiva da história da arte, a artista Larissa de Souza, por exemplo, que não é uma estilista, constrói as personagens em suas pinturas a partir da roupa, atribuindo dignidade às pessoas negras. No caso da Aline Motta, o tecido é o suporte principal de suas práticas artísticas, o que a aproxima do público. Já Rosana Paulino, que é filha de uma costureira e bordadeira, constrói uma relação com a costura desde 1994, quando faz Parede da Memória, obra aberta na qual usa têxteis e fotografias escolhidas também pensando em roupas. Por mais que artistas como essas não trabalhem com moda — ou, ainda, Heitor dos Prazeres, que era alfaiate, e Maria Auxiliadora da Silva, filha de uma bordadeira —, aspectos do vestir e da costura permeiam suas criações. Por outro lado, Angela Britto é uma estilista que pensa as roupas como peças de memória e acervo.

 

Por que você escolheu abrir Negras Maneiras de Vestir por suas memórias familiares?

Quando minha mãe leu a versão final do texto, ela me disse: "Filha, eu via você passar horas olhando aquelas caixas de fotografia, mas jamais imaginei que elas iam te levar a escrever um livro". Eu tinha 10 anos, achava especiais aquelas fotos de pessoas que nem conheci muito bem, e suas roupas sempre me cativaram. Em 2021, publiquei uma coluna para a revista Elle sobre a minha relação com essas imagens e recebi muitas mensagens. Compreendi que essas lembranças interessavam às pessoas. Além disso, ministrei um curso, Negras Maneiras de Vestir, no qual pedia aos alunos para escreverem cartas contando histórias a partir de seus acervos familiares, e os retornos foram muito positivos. A ideia de família costura todo o livro.

 

De que maneira isso ocorre?

Além dos meus parentes, no segundo capítulo, parto de fotos de mulheres negras oitocentistas, que pertencem a acervos como os do Instituto Moreira Salles e da Biblioteca Nacional, para chegar a uma família imaginada. Aqueles retratos poderiam ser de nossas antepassadas. No terceiro capítulo, trato da família espiritual, no candomblé, e, no quarto, das artistas que mencionei (Aline, Larissa, Rosana), cujas obras trazem a família para o centro da narrativa.

 

Qual é a importância da moda para a população afrodescendente?

As pessoas negras na diáspora e no continente africano sempre se interessaram por construir suas estéticas. No Brasil, a roupa é também uma maneira de driblar violências. A ideia de usar o sapato permeia os tempos coloniais — pessoas escravizadas só andavam descalças e imperiais. O assunto deságua na história do meu avô, um dândi negro que tinha quase uma obsessão por ter seus sapatos sempre brilhantes. Meu livro convida a pensar qual é o papel das roupas em nossa história, pois, para boa parte da população, a moda é entendida como algo superficial. O interessante é refletir essas maneiras de vestir em cada núcleo familiar, de qualquer ascendência.

Sobre relações ancestrais entre brasileiros e africanos, todas as vezes que entrevistei a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, ela mencionou o quanto sua mãe cobrava que ela estivesse sempre "apresentável"...

Acho que a mãe da Chimamanda fez um trabalho incrível, porque ela está sempre impecável, além de ser articulada e eloquente. Essa estética passa por um pacote completo, que tem uma relação ancestral, como mostro no segundo capítulo do livro, que trata das imagens de mulheres negras no século XIX, tema do meu doutorado. Nos retratos, elas estão sempre apresentáveis, lindas e cobertas de joias. Há muitas teorias sobre isso.

 

Poderiam estar vestidas assim porque os escravocratas queriam mostrar o quanto eram ricos, por exemplo?

Minha fabulação crítica para a história da moda negra brasileira propõe outro relato para essas mulheres. Em minhas aulas e no livro escolho pensar que as roupas e as joias são delas, que participavam ativamente como stylists de suas próprias imagens. O olhar e a postura dessas mulheres bonitas e bem-vestidas desafiam os fotógrafos. Como não existe uma documentação com a verdadeira identidade da jovem fotografada por Marc Ferrez, no retrato intitulado Negra da Bahia, eu a chamo de Belíssima da Bahia. Imagino que ela foi uma comerciante próspera que frequentou seu estúdio fotográfico.

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