01 Rendez vous: Julio Le Parc e Oskar Metsavaht em conversa exclusiva

Rendez vous: Julio Le Parc e Oskar Metsavaht em conversa exclusiva

Arte

Compartilhe esse arquivo

Julio Le Parc nos deixou no dia 30 de maio, aos 97 anos. Pioneiro da arte cinética e cofundador do Groupe de Recherche d’Art Visuel na década de 1960, o artista argentino cultivou com Oskar Metsavaht, brasileiro fundador da Osklen e do estúdio multidisciplinar OM.art, uma amizade que acumulou boas histórias – sejam as contadas em roda de conversa com José Mujica, ex-presidente do Uruguai, sejam as que aconteceram dentro do ateliê parisiense do artista plástico. Especialmente para a Numéro Brasil, Julio e Oskar se encontraram em 2023 para um diálogo, que foi acompanhado por Antonia Petta. Relembre abaixo parte da conversa.

 

Oskar: Julio, quando penso em você, me vem à cabeça um artista com alma jovem, como Mick Jagger. Uma vez perguntei ao frontman dos Rolling Stones qual era o segredo de sua vitalidade e resistência nos shows. Na opinião dele, era ter tido filhos em várias fases da vida; aos 30, 40, 60. Quando te conheci, aqui no Rio, você tinha 89 anos. Desde então, sempre me perguntei se o espírito do artista deixa o corpo e a mente mais saudáveis e felizes, ou a vida mais leve e potente. O que você acha que te move?

 

Julio: Não é o fato de fazer arte. Em geral, para mim, fazer as coisas – qualquer coisa – é o suficiente. Mesmo quando era criança, inventava coisas o tempo todo. Então, os pequenos resultados que se vai obtendo são os que causam satisfação, e talvez isso se transforme em energia. Se eu te faço rir, isso me dá satisfação. Se eu fosse sapateiro, talvez fosse feliz consertando sapatos. Está consertado, pronto. Mas não particularmente a arte.

 

Oskar: Conheci seu trabalho com mais profundidade em uma exposição no Grand Palais, em Paris, há alguns anos. Depois, estive em sua retrospectiva em Buenos Aires. Sua geração teve expoentes na arte concreta e cinética que seguiam um rigor científico para criar uma elevação do espírito com abstrações até então jamais experimentadas. Nas últimas décadas, a computação gráfica permitiu a muitos artistas realizar com bastante facilidade obras de optical art. Para muitos, o que conta é o resultado final. Para mim, no entanto, a jornada para a realização da obra faz parte da experiência do artista. Você conseguiria descrever como ocorre para você esse momento, desde a epifania até a obra final? '

 

Julio: Os primeiros desenhos que fiz, em 1958, eram recursos que me permitiam a evolução para outros suportes. O espectador respondia a alguns parâmetros que tínhamos esboçado, numa espécie de programação. Dessa forma, podíamos mudar os parâmetros da nossa modesta programação e obter um outro resultado, que talvez criasse uma relação mais direta com o olho de uma pessoa. Uma anedota: nessa época, conhecemos uma artista que até tinha suas inquietações, mas que não havia criado absolutamente nada. Enquanto isso, nós experimentávamos e produzíamos, talvez, 100 ou 150 projetos, dividindo, multiplicando... Naquela época, não havia calculadoras como as de hoje. Passaram-se alguns anos e os computadores surgiram. O marido dela pôde comprar um, era grande, gigantesco. Então, essa pessoa começou a fazer coisas por meio do computador que eram exatamente as mesmas que nós havíamos feito. Isso se tornou “arte de computador”. Por quê? Porque em vez de fazê-la à mão, quebrando a cabeça, era o computador que lhe havia dado desenhos e soluções. Para nós, era como se estivessem sem vida. As técnicas, do meu ponto de vista, não são garantia de nada. É como desenhar com um lápis ordinário ou com um caro. O lápis caro não lhe dará um desenho melhor.

 

 

“A cabeça por trás do que está sendo inventado tem que ser mais forte do que a técnica. Senão nós todos podemos dormir e deixar as máquinas funcionando, certo?”

Julio Le Parc

 

Oskar: Não tem a presença do espírito humano, né?

 

Julio: Às vezes, o que vejo é simplesmente uma acumulação de efeitos, efeitos, efeitos. Passam uns minutos, e você está sobrecarregado de efeitos, não encontra nenhum sentido na quantidade de coisas. Porém, com as mesmas técnicas é possível fazer coisas interessantes. Não é a técnica que tem que dominar a criação: a cabeça por trás do que está sendo inventado tem que ser mais forte do que a técnica. Senão nós todos podemos dormir e deixar as máquinas funcionando, certo?

 

Oskar: Se a minha plataforma não fosse o design de moda, estaria em outra coisa, como em um filme, uma pintura, uma música, um poema. Mas, a partir do momento em que se transforma em design, é design. Por isso, penso que moda não é arte, mas se realiza através do design. Como você vê a relação entre arte e moda? Quando ela expressa o espírito do criador, pode ser considerada uma expressão de arte?

 

Julio: Penso que, de uma maneira artificial, na nossa sociedade houve uma divisão há algum tempo entre fazer coisas e chamá-las de arte. Por exemplo, no caso de quem fabrica sapatos, há um envolvimento, um empenho, uma dedicação. Quem fabrica ou inventa coisas que talvez não se denominam arte é, muitas vezes, mais importante e interessante do que um autoproclamado artista. Essa distinção se torna tão grande que, às vezes, fica ridícula. Acredito que em cada disciplina há uma arte. Um cirurgião que abre um coração faz a sua arte. Um bombeiro que apaga um incêndio tem conhecimento, processos, tem seu caminhão, a mangueira, a estratégia, a maneira de lidar com o fogo – pode ser igual ou talvez mais importante do que um pintor que faz quatro riscos e chama isso de obra de arte. Pensando bem… [longa pausa] o que o bombeiro faz é melhor do que um happening.

  • Rendez vous: Julio Le Parc e Oskar Metsavaht em conversa exclusiva Rendez vous: Julio Le Parc e Oskar Metsavaht em conversa exclusiva

O brasileiro OSKAR METSAVAHT, fundador da Osklen e do estúdio multidisciplinar OM.art.