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Radical Kiss

Moda

Há algo de radical no beijo. Íntimo e cotidiano, é um gesto que sugere a perda temporária de si no outro. No trabalho dos fotógrafos holandeses Inez van Lamsweerde e Vinoodh Matadin, o ato é o emblema máximo de uma união que completa 40 anos em 2026. Neste mês de março, uma nova exposição no Kunstmuseum Den Haag celebra os artistas, percorrendo quatro décadas de uma parceria que entrelaça vida e obra.

  • Inez & Vinoodh, ALEXANDER MCQUEEN [2004].

    Inez & Vinoodh, ALEXANDER MCQUEEN [2004]. Inez & Vinoodh, ALEXANDER MCQUEEN [2004].
  • Inez & Vinoodh, Painted Roses [2013].

    Inez & Vinoodh, Painted Roses [2013]. Inez & Vinoodh, Painted Roses [2013].
  • Inez & Vinoodh, BJÖRK – Volumen with M/M (Paris) [1999].

    Inez & Vinoodh, BJÖRK – Volumen with M/M (Paris) [1999]. Inez & Vinoodh, BJÖRK – Volumen with M/M (Paris) [1999].
  • Inez & Vinoodh, Maggie’s Box [1998].

    Inez & Vinoodh, Maggie’s Box [1998]. Inez & Vinoodh, Maggie’s Box [1998].
  • Inez & Vinoodh, MICHAEL DOUGLAS – W Magazine [2011].

    Inez & Vinoodh, MICHAEL DOUGLAS – W Magazine [2011]. Inez & Vinoodh, MICHAEL DOUGLAS – W Magazine [2011].
  • Inez & Vinoodh, KENDRICK LAMAR [2023].

    Inez & Vinoodh, KENDRICK LAMAR [2023]. Inez & Vinoodh, KENDRICK LAMAR [2023].
  • Inez & Vinoodh, BJÖRK – Interview Magazine with M/M (Paris) [2009].

    Inez & Vinoodh, BJÖRK – Interview Magazine with M/M (Paris) [2009]. Inez & Vinoodh, BJÖRK – Interview Magazine with M/M (Paris) [2009].
  • Inez & Vinoodh, Fashion Plate no. 3 [2020].

    Inez & Vinoodh, Fashion Plate no. 3 [2020]. Inez & Vinoodh, Fashion Plate no. 3 [2020].

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Amantes de moda certamente já viram uma imagem de Inez & Vinoodh. A exposição “Can Love Be A Photograph”, no entanto, vai além da produção fashion que consagrou a dupla holandesa de fotógrafos. Distribuída por 18 galerias do Kunstmuseum Den Haag, em Haia, a retrospectiva não foi pensada de forma cronológica, mas temática. “Às vezes, as roupas são o ponto de partida de uma fotografia, mas a exposição em si não é sobre moda. Um tema que ressurgiu repetidamente foi a tensão entre o real e o irreal. A fotografia é frequentemente percebida como um reflexo direto da realidade ou da verdade, mas esse nunca é realmente o caso. Aprofundar essa ideia sempre foi fundamental para o nosso ofício”, contam em entrevista exclusiva à Numéro Brasil.

 

Quando iniciaram seus experimentos com manipulação digital, em 1992, esse ainda era um território pouco explorado, tanto na moda quanto nas artes. Utilizando a tecnologia para tornar visível o que é psíquico, Inez e Vinoodh buscavam traduzir nuances internas que consideravam impossíveis de capturar em seus personagens pelos meios tradicionais. “Hoje a manipulação digital está em toda parte. Filtros faciais e retoques são ferramentas do cotidiano, mas ainda acreditamos que a longevidade de uma imagem está em ter algo significativo a dizer. A tecnologia é apenas um veículo.”

 

Ícone da mostra, a foto The Kiss atravessa a obra da dupla desde 1999 como uma investigação sobre fusão física e simbólica no ato do beijo. Pela primeira vez, três trabalhos emblemáticos da série Me Kissing… serão exibidos ao lado do novo conjunto Think Love, em que o afeto é projetado tendo em vista uma nova geração.

  • Inez & Vinoodh, MILES GREENBERG [2024].

    Inez & Vinoodh, MILES GREENBERG [2024]. Inez & Vinoodh, MILES GREENBERG [2024].
  • Inez & Vinoodh, PRINCE [2013].

    Inez & Vinoodh, PRINCE [2013]. Inez & Vinoodh, PRINCE [2013].

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A continuidade faz sentido: Inez e Vinoodh seguem apaixonados. Um pelo outro, e pelo que fazem juntos. “Concentrar-se totalmente na pessoa sentada diante da câmera é a coisa mais bonita do mundo.” A seguir, a dupla fala sobre processo criativo, intimidade artística, o sonho de voltar ao Brasil e o que nos aguarda na mostra.

 

Essa exposição levanta uma questão aparentemente simples: o amor pode ser uma fotografia? Depois de 40 anos trabalhando juntos, a resposta a essa pergunta mudou para vocês?


Na verdade, para nós, não é mais uma pergunta, mas uma afirmação. “O amor pode ser uma fotografia” é como vemos tudo o que fazemos. Vivemos e trabalhamos segundo a ideia de Simone Weil de que “a atenção é a forma mais rara e pura de generosidade”. Para nós, quando nos concentramos totalmente na pessoa sentada diante da nossa câmera, é a coisa mais bonita do mundo. Olhando para trás, para 40 anos trabalhando juntos, fica muito claro que é disso que se trata o nosso trabalho: as pessoas que fotografamos e o desejo de guardá-las. Através da fotografia, elas existem para sempre.

 

A mostra está organizada por temas, não em linha cronológica, o que permite que imagens de diferentes séries dialoguem entre si. Quais novos significados ou tensões emocionais surgiram para vocês quando o tempo deixou de ser o princípio estruturante?


Foi incrivelmente libertador e bonito retornar ao nosso arquivo. Passamos aproximadamente um ano e meio revisando quatro décadas de trabalho, agrupando imagens que compartilhavam o mesmo significado e com a mesma ressonância emocional. Nessa exposição, as roupas às vezes são o ponto de partida de uma fotografia, mas a exposição em si não é sobre moda. A moda faz parte dela, mas o que realmente importa é o significado de uma imagem e como ela existe em diálogo com as fotografias ao seu redor. Conversando entre nós e com aqueles ao nosso redor, ficaram claros os nossos fascínios recorrentes. Um tema que ressurgiu repetidamente foi a tensão entre o real e o irreal. A fotografia é frequentemente percebida como um reflexo direto da realidade ou da verdade, mas esse nunca é de fato o caso. No momento em que se enquadra uma fotografia, você já está manipulando essa verdade ao decidir quais informações incluir e excluir – você está ativamente criando a sua versão da realidade. Aprofundar essa ideia sempre foi fundamental para nosso ofício. Nós prosperamos com a ideia de que podemos subverter o “momento decisivo” ao voltar a manipular as imagens após o ensaio, para revelar um significado diferente e oculto. Outro tema recorrente é o surrealismo: uma fricção entre o familiar e o inquietante, o cotidiano e o estranho. Há sempre algo ligeiramente misterioso em nosso trabalho – algo que você não consegue explicar completamente, mas consegue sentir. Muitas vezes, é um mínimo detalhe que cria essa sensação. Embora partes do nosso trabalho sejam deliberadamente alteradas, frequentemente fazemos referência a práticas surrealistas tradicionais, como a colagem ou o cadavre exquis [técnica colaborativa feita praticamente às cegas]. Às vezes isso é feito à mão; em outros casos, é feito de forma imperceptível por meio de ferramentas digitais, criando imagens tão fluidas que os espectadores questionam o que estão realmente vendo.

  • Inez & Vinoodh, KATE [1999].

    Inez & Vinoodh, KATE [1999]. Inez & Vinoodh, KATE [1999].
  • Inez & Vinoodh, ROLLERGIRL YSL CAMPAIGN [2017].

    Inez & Vinoodh, ROLLERGIRL YSL CAMPAIGN [2017]. Inez & Vinoodh, ROLLERGIRL YSL CAMPAIGN [2017].
  • Inez & Vinoodh, MELIA MARDEN [2011].

    Inez & Vinoodh, MELIA MARDEN [2011]. Inez & Vinoodh, MELIA MARDEN [2011].

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O curador italiano Francesco Bonami descreve o trabalho de vocês como uma “realidade invisível que parece artificial, mas não é”. Ao criar uma imagem, quão conscientes vocês estão ao caminhar nessa linha tênue entre a verdade emocional e o artifício visual?


Estamos constantemente caminhando nessa linha. Às vezes, é intencional; buscamos explorar a ideia de realidade na fotografia e questionar seu papel como suposto fornecedor da verdade. Outras vezes, acontece intuitivamente, torna-se parte da imagem organicamente. Na moda, as pessoas costumam pedir imagens que pareçam “reais” ou “cruas”, mas toda foto de moda, por natureza, é encenada. Styling, cabelo, maquiagem: nada é acidental. O verdadeiro realismo não existe, de fato, na fotografia de moda. Com a exposição, mostramos pessoas extraordinárias e roupas extraordinárias, mas ela não está organizada por categorias estéticas como cor ou peças de vestuário. Trata-se de contexto, significado e como as imagens se comunicam umas com as outras em um mesmo espaço.

 

O crítico Michael Bracewell escreve que as suas imagens de moda transformam o glamour em uma “alegoria psicológica”. O que há na moda que a torna um veículo tão poderoso para isso?


Michael Bracewell certa vez escreveu que a fotografia de moda mostra o caminho para a felicidade por meio do glamour. E esse é, essencialmente, o negócio da imagem de moda. São imagens que sugerem que, se você comprar uma determinada bolsa, jaqueta ou par de sapatos, terá acesso àquela vida retratada na fotografia – felicidade, coolness, pertencimento. A moda opera por meio de uma linguagem compartilhada de códigos e símbolos. Todos nós entendemos que diferentes relógios, roupas ou acessórios sinalizam coisas diferentes. Algumas pessoas se relacionam com esses sinais de forma consciente, outras de maneira subconsciente, mas todos são afetados. Todas as manhãs, decidimos quem queremos ser com base no que vestimos, seja para uma entrevista de emprego, para encontrar amigos ou para ir à aula de ioga. A moda é uma forma de comunicação. E nós somos infinitamente fascinados pela maneira como a moda é movida pela nostalgia, retornando constantemente à adolescência; um período em que a identidade, a sexualidade, as amizades e as referências estão sendo formadas. São as músicas, os filmes, os livros que permanecem conosco. A moda continua remixando essas memórias, fazendo com que elas pareçam novas, enquanto desperta desejo e um reconhecimento emocional profundo.

 

Vocês foram pioneiros na manipulação digital de imagens num momento em que isso ainda parecia profundamente perturbador. Hoje, vivemos em uma cultura com imagens permanentemente editadas e filtradas por algoritmos. O significado de “manipulação” mudou para vocês?


Começamos a trabalhar com manipulação digital em 1992, quando ainda era algo completamente novo. Ninguém utilizava esse recurso em fotografia de moda ou de arte. O que mais nos fascinava era a capacidade de visualizar um estado psicológico ou interno e trazê-lo à superfície de uma imagem – algo que seria impossível de expressar de outra forma. Um exemplo fundamental disso está em Me Kissing Vinoodh (Passionately), de 1999. Estamos nos beijando, mas o rosto de Vinoodh foi removido digitalmente e substituído pela parede atrás dele, deixando apenas o meu rosto, distorcido pelo amor e pela perda. Isso cria uma nova fisionomia que nasce da ruptura emocional. Hoje, a manipulação digital está em toda parte. Filtros faciais e retoques são ferramentas do cotidiano, mas ainda acreditamos que a longevidade de uma imagem está em ter algo significativo a dizer. A tecnologia é apenas um veículo.

  • Inez & Vinoodh, KATE MOSS [2008].

    Inez & Vinoodh, KATE MOSS [2008]. Inez & Vinoodh, KATE MOSS [2008].
  • Inez & Vinoodh, 3 YELLOW ROSES [2013].

    Inez & Vinoodh, 3 YELLOW ROSES [2013]. Inez & Vinoodh, 3 YELLOW ROSES [2013].
  • Inez & Vinoodh, BILLIE EILISH [2019].

    Inez & Vinoodh, BILLIE EILISH [2019]. Inez & Vinoodh, BILLIE EILISH [2019].
  • Inez & Vinoodh, CHRISTY TURLINGTON [2001].

    Inez & Vinoodh, CHRISTY TURLINGTON [2001]. Inez & Vinoodh, CHRISTY TURLINGTON [2001].
  • Inez & Vinoodh, LG 3000 [2016].

    Inez & Vinoodh, LG 3000 [2016]. Inez & Vinoodh, LG 3000 [2016].

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A foto The Kiss surge como uma espécie de emblema emocional da exposição, não necessariamente como gesto romântico, mas como o momento de fusão de “eus” que se dissolvem. O que continua atraindo vocês de volta a essa imagem, depois de mais de duas décadas?

The Kiss representa fusão; dois seres se tornando um. É a completa perda de um eu no outro. Emocionalmente, é a forma máxima de intimidade. Visualmente, é surreal: duas pessoas se distorcendo mutuamente através da paixão e do amor. Esse motivo tem raízes profundas na história da arte e, para nós, é o símbolo mais forte da união. Inspirada nas famosas obras de Klimt e Munch, a imagem de beijo mais recente que fizemos apresenta nosso filho Charles e sua namorada Natalie Brumley – a foto foi criada para um projeto com a Apple usando o iPhone 17 Pro Max. Eles são fotografados sob um véu vermelho transparente, suspensos em um momento íntimo. Atrás deles, uma rodovia sugere um futuro ainda em desenvolvimento. Como disse Pamela Chen, cientista-chefe de estética da Apple, “a fotografia se torna uma dobradiça: amor dentro de amor, memória dentro de um momento, o fantasma de um beijo antigo aninhado em um novo”. Essa imagem reflete os valores da geração deles, pois muitos dos jovens artistas de hoje estão menos focados em traumas pessoais e mais preocupados em proteger a natureza, uns aos outros e o futuro. Eles entendem que devem olhar para fora e trabalhar ativamente para salvar o mundo.
 

Essa exposição também encontra raízes na vida compartilhada desde 1986 por vocês dois. Como vocês sentem as diferenças e a tensão dentro de uma parceria pessoal e criativa tão longa?


Estamos juntos há mais tempo do que separados. Não sabemos como é não estarmos juntos todos os dias. Nossa vida e trabalho estão completamente entrelaçados. Vivemos e respiramos o que fazemos, somos mais felizes quando estamos criando. Tudo gira em torno do que conversamos e do que compartilhamos; não conhecemos outra forma de viver. Não entendemos a ideia de ter empregos separados e depois voltar para casa para nos reconectarmos. Para nós, o reencontro acontece constantemente, na vida e no trabalho.

 

Por último, mas não menos importante: seu trabalho foi exibido aqui no Brasil durante a exposição “Pretty Much Everything”, em 2011, no prédio da Bienal de São Paulo. Como essa experiência moldou sua percepção do Brasil?


Ficamos absolutamente impressionados com o Brasil. O nível de design e consciência estética é extraordinário – da arquitetura e planejamento urbano aos interiores e à arte. Além do calor e da generosidade das pessoas, ficamos impressionados com a profundidade com que a beleza e o design estão enraizados na cultura brasileira. Adoraríamos expor nosso trabalho aí novamente. Seria um sonho voltar.

  • Inez & Vinoodh, KATE MOSS [1999]

    Inez & Vinoodh, KATE MOSS [1999] Inez & Vinoodh, KATE MOSS [1999]
  • Inez & Vinoodh, BILL MURRAY [2004]

    Inez & Vinoodh, BILL MURRAY [2004] Inez & Vinoodh, BILL MURRAY [2004]

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Can Love Be A Photograph – 40 Years of Inez & Vinoodh
De 21 de março a 6 de setembro.
Kunstmuseum Den Haag, Haia, Holanda.
@kunstmuseum.nl

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