Irving Penn (1917–2009) jamais buscou a celebridade; teve apenas o infortúnio de ser genial o suficiente para não conseguir escapar dela. Em uma das poucas entrevistas que concedeu, o fotógrafo norte-americano lembrou-se da manhã em que sua notoriedade no mundo exterior resolveu se infiltrar por uma brecha doméstica: uma goteira na pia da cozinha. Penn chamou o encanador de sempre, um sujeito discreto com quem mantinha uma relação cordial. Ao abrir a porta, veio a revelação: “Bom dia. O senhor está na enciclopédia”, disse o homem. Penn ouviu a frase como quem escuta uma sentença. “Nosso relacionamento acabou ali”, desabafou ao jornal The New York Times. É que, a partir daquele instante, “uma torneira pingando já não era mais algo suficientemente importante”. O caso pode parecer cotidiano, quase trivial, mas diz algo sobre a personalidade do artista. Em primeiro lugar, é claro que ele era avesso à fama. Em segundo, sua cabeça operava com foco ajustado para o instante presente, enquadrando com absoluta concentração o que estava à sua frente – para Penn, uma goteira na cozinha e Marlene Dietrich em seu estúdio eram merecedores do mesmo grau de atenção.
“Ele produziu fotografias de moda desde os 26 anos de idade, até ultrapassar os 90. Fez isso sem abandonar seus princípios ou fazer concessões”, afirma Pascal Höel, curador da exposição “Penn & Fashion”, que fica em cartaz entre 30 de setembro e 17 de janeiro de 2027 na Maison Européenne de la Photographie, em Paris. Para Höel, a organização cronológica da mostra, que percorre fotografias realizadas entre 1947 e 2008, só reforça a consistência de sua produção artística. “Ao longo de mais de 60 anos de história da moda, ele manteve o mesmo frescor, inteligência e rigor em suas composições.”
Nascido em Plainfield, Nova Jersey, Penn trabalhou até o último dia de vida. Na mostra, a foto mais recente data do ano anterior à sua morte. Ele preferia o ambiente controlado do estúdio e mantinha um processo de criação tão técnico quanto humano: antes de disparar o primeiro clique, sentava-se com o fotografado da vez para tomar uma xícara de chá ou café. E conversava. O protocolo garantia uma recepção calorosa e, ao mesmo tempo, posicionava o retratado imediatamente como objeto de estudo.
A formalidade não estava no trato – ele preferia deixar isso para sua metodologia. “À primeira vista, as fotografias de Penn parecem refletir um certo classicismo, por conta de suas composições contidas e do uso frequente do preto e branco. No entanto, quando examinadas de perto, há sempre um detalhe, um acessório ou uma expressão particular que torna cada imagem única, poderosa e extraordinária. Suas fotografias são o resultado de muitas horas de preparação e ajustes cuidadosos, levando à criação de uma imagem aparentemente perfeita”, observa Höel.
A nova mostra reúne imagens do acervo do MEP e conta com colaborações da Irving Penn Foundation e da Nicola Erni Collection. Há retratos de figuras célebres, como o do estilista Christian Dior, além de fotos eternizadas em sua duradoura colaboração com a Vogue norte-americana, como a que traz a modelo sueca Lisa Fonssagrives (com quem se casou em 1950, imediatamente após os desfiles de alta-costura em Paris) envolvida por peças da Balenciaga.
Há também composições que evidenciam um intercâmbio criativo particular com estilistas, caso da notória série criada ao lado de Issey Miyake, e expedições fotográficas mundo afora, que revelavam seu interesse para além da indústria fashion. Segundo o filho do fotógrafo, Tom, durante a produção do trabalho etnográfico, Penn não conseguia se comunicar com as pessoas retratadas, mas todos pareciam entender que algo especial estava acontecendo. Havia uma espécie de diálogo silencioso.
Penn era sensível à vida, buscava capturar a alma do que estava diante de sua câmera, fosse uma roupa, um inseto, um rock star ou um pedaço de carne crua.
“Posso ficar obcecado por qualquer coisa se olhar para ela por tempo suficiente”, disse certa vez. No entanto, essa abrangência de temas, que ele costumava chamar de “mudança de dieta”, era filtrada até chegar a uma mesma essência: isolar os sujeitos de seu contexto e elevá-los a uma composição gráfica. “Criadas com fundos neutros, frequentemente utilizando luz natural, as fotografias de Penn são o resultado de uma abordagem simples e minimalista. Esse método permite que a atenção do espectador se concentre nos elementos essenciais de suas composições, como a personalidade dos biografados e modelos, bem como as criações dos grandes estilistas com quem ele colaborou”, explica Höel. Nas palavras de Penn, “nós não chamamos de shoots, não ‘disparamos’ contra as pessoas. É, na verdade, um caso de amor”. A frase brinca com a palavra que une as ideias de ensaio fotográfico e disparo ao mesmo tempo.
Diante de uma gramática visual tão inconfundível, pergunto a Höel se o mergulho nos arquivos da exposição acabou por revelar alguma fenda, alguma surpresa capaz de deslocar, ainda que ligeiramente, sua percepção sobre a obra de Penn. “Sim, particularmente as obras dos anos 2000, que são menos conhecidas. Coloridas, foram criadas com o mesmo rigor de suas obras-primas dos anos 1950. Também fiquei especialmente impressionado com as imagens que Penn produziu para as páginas de beleza da Vogue ao longo de várias décadas. Elas demonstram um nível extraordinário de criatividade e modernidade, frequentemente impregnadas de humor e, acima de tudo, de uma eficiência visual excepcional.”
O mesmo rigor que Penn empregou no estúdio guiou a organização final de seu arquivo e a criação da fundação que carrega seu nome. Refugiado em um celeiro dentro de uma propriedade em Long Island desde o fim dos anos 1960, ele chegou a investir 50 horas na lapidação manual de uma única impressão em platina. Quando morreu, aos 92 anos, a fama já não era uma goteira incômoda, mas a consequência inevitável de um trabalho que vai permanecer para sempre na história da imagem de moda.
Penn & Fashion
De 30 de setembro de 2026 a 17 de janeiro de 2027
Maison Européenne de la Photographie
Paris, França