27 The Antwerp Six, 1986, © Photo: Karel Fonteyne/Cortesia MoMu

FASHION CURATED: “The Antwerp Six” no MoMu

Cultura

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Em 1986, a vanguarda da moda cabia em uma van alugada rumo a Londres. Dentro dela, seis jovens estilistas belgas que nunca planejaram um coletivo, mas voltaram para casa cultuados como um. Neste 2026, uma exposição no MoMu celebra os 40 anos de história do “The Antwerp Six”, apresentada por seus curadores a seguir em uma entrevista exclusiva.

 

 

Dirk Bikkembergs, Ann Demeulemeester, Walter Van Beirendonck, Dries Van Noten, Dirk Van Saene e Marina Yee nunca planejaram um coletivo, mas voltaram para casa após uma viagem a Londres cultuados como um – o batismo como “The Antwerp Six” (em português, “os seis da Antuérpia”) foi um improviso da imprensa britânica, incapaz de pronunciar seus nomes complicados entre os estandes de um tradeshow na capital inglesa. “A questão é a seguinte: a história dos seis só durou três anos”, explica Geert Bruloot, o homem que não apenas ocupava um assento naquela van, mas que orquestrou o desembarque na capital inglesa. “Começamos juntos, mas logo depois fomos expulsos porque nos rebelamos contra o sistema do British Fashion Council: ao invés de nos apresentar nas tendas, fizemos um desfile-guerrilha. Nunca foi nosso objetivo formar um grupo. Havia apenas uma turma de estudantes da Academia Real de Belas Artes da Antuérpia, todos com origens distintas, mas que eram, acima de tudo, excepcionalmente talentosos. Começaram a influenciar uns aos outros. Também foi o momento em que o departamento de moda da escola começou a se rebelar contra o método acadêmico e os ideais de Madame Prijot [a figura que fundou e comandou o programa de moda da escola durante a maior parte de sua vida]. Havia um novo tipo de moda surgindo, e esses jovens queriam fazer parte disso. De certa forma, era uma revolta”, ele explica à coluna Fashion Curated.

Ao lado de Romy Cockx e Kaat Debo, Geert é curador de “The Antwerp Six”, exposição que abre as portas no dia 28 de março no MoMu, celebrando os 40 anos desde a primeira faísca desse estouro. Será, muito provavelmente, a mais importante exposição de moda de todo este 2026 (quando eu voltar, posso te dizer), com materiais nunca antes vistos e a pesquisa mais completa realizada sobre o assunto até o momento. Nesta entrevista exclusiva com Geert e Romy, realizada meses após a partida de Yee, conversamos sobre a força que reside na moda autoral independente, a importância da preservação da memória fashion e em como a educação na Academia Real de Belas Artes colaborou para a transformação da Antuérpia; de uma cidade historicamente posicionada na periferia da construção estética para o centro avant-garde do pensamento contemporâneo. 

  • The Antwerp Six, 1985, graphic design: Viktor Robyn, © Photography: Patrick Robyn/Cortesia MoMu

    The Antwerp Six, 1985, graphic design: Viktor Robyn, © Photography: Patrick Robyn/Cortesia MoMu The Antwerp Six, 1985, graphic design: Viktor Robyn, © Photography: Patrick Robyn/Cortesia MoMu

Os Antwerp Six são frequentemente citados como um conjunto, porém suas carreiras individuais são únicas, diferentes entre si. Qual foi o maior desafio ao fazer a curadoria de uma narrativa coerente que honra tanto o coletivo dos seis integrantes quanto as assinaturas autorais de cada um?

 

GEERT: Quando eu os conheci, já tinham terminado seus estudos; foi graças ao concurso Golden Spindle, organizado pelo governo, em que o objetivo era reunir designers de moda criativos para trabalharem com fabricantes belgas; uma ideia fantástica. Então eles conseguiram, três vezes seguidas, fazer coleções completas, da cabeça aos pés, sem qualquer objetivo comercial. Era moda de vanguarda. Ali descobri a possibilidade de levá-los ao cenário internacional. E, se falássemos sobre a nova moda, a música, o punk, os new romantics, estávamos falando sobre Londres. Então era necessário estar lá, naquele momento: Vivienne Westwood BodyMap e Katherine Hamnett estavam lá, John Galliano estava começando. Então, propus a [Dirk] Bikkembergs que apresentasse em Londres sua coleção de sapatos (que já estava vendendo muito bem na loja de calçados Coccodrillo). Depois, achei que seria bom acrescentarmos algumas roupas e fui ver Walter [Van Beirendonck], que me disse: “Sim”. Depois, Dries [Van Noten] ligou e perguntou: “Por que eu não posso ir também?”. Foi aí que tive a ideia de todos irem – todos os seis. Chegando em Londres, foi uma luta para conseguir espaço, porque estávamos saindo do “lugar nenhum” da moda, que era a Bélgica. Não havia moda na Bélgica. Então, de repente, havia seis jovens belgas que queriam expor seu trabalho no British Designer Show. Eles nos colocaram no segundo andar, no meio dos vestidos de noiva e das botas de látex fetichistas; estávamos no lugar errado, enquanto víamos tudo acontecendo no andar de baixo. Mas reagimos: fizemos flyers e os distribuímos no térreo. No segundo dia, tudo começou: o primeiro cliente a fazer pedidos foi a Barneys New York, o sonho de todo designer naquela época, e as encomendas foram para vários itens dos seis. Foi então que o burburinho começou. “Ei, você precisa ir ao segundo andar. Tem algo novo lá. Não apenas um, mas seis designers novos surgiram do nada; eles são fortes e têm uma apresentação fantástica”. Foi o que o [jornalista de moda] Tim Blanks me disse. Esse burburinho foi aumentando, e foi aí que a imprensa e os compradores começaram a nos chamar de “The Antwerp Six”: porque não conseguiam pronunciar nossos nomes. A nomenclatura surgiu espontaneamente durante o evento. Não podemos atribuir o batismo do nome a uma pessoa específica. Mas nunca foi nosso objetivo virar uma banda pop e cantar as mesmas músicas. Nunca. Eram seis estilistas individuais que, por coincidência (e talvez pelo destino) estavam exibindo suas peças juntos em Londres. A história dos seis se desfez fisicamente e cada um seguiu seu percurso. Nenhum de nós jamais trabalhou para manter o mito dos “seis”; esse mito passou a existir por conta própria, continuou vivo e, até hoje, ficou cada vez mais forte. Transformar essa história em exposição é muito difícil. Eu disse a Romy [Cockx]: vamos fazer, de um lado, um catálogo – algo como um catalogue raisonné – que explique por que isso tudo aconteceu e em que contexto aconteceu. E então David Lynch, que é meu grande ídolo, entrou na história. Lynch foi um diretor de cinema capaz de dar vida a um livro, deixando amplo espaço para a imaginação. Ele convidava o público a imaginar e interpretar narrativas à sua maneira. Pensei: vamos contar essa história e pedir ao público que imagine um tanto, porque é disso que trata um mito: algo que vive na mente das pessoas, que habita o imaginário coletivo. 

 

Então, sob essa perspectiva, a participação do público é essencial na exposição.

 

GEERT: Sim. Também tentarei apresentar com um olhar internacional. Mostrar que não foi algo que aconteceu apenas em Antuérpia, mas que, desde o início, foi pensado para o mundo. Não tínhamos um plano, nem sabíamos onde chegaríamos, mas sentíamos que algo incrível estava acontecendo. Essa é a base do sucesso dessa história. Outro ponto que quisemos trazer à exposição é o contexto. Em 1986, os estudantes faziam parte da rebelião de uma nova geração. Havia também uma revolução sexual, a pílula anticoncepcional, mulheres conquistando liberdade. Uma nova revolução cultural. Queríamos romper com a história de nossos pais, criar algo novo. Isso se espalhou pelas artes, pela música – e também pela moda. Foi nesse momento em que a Academia Real de Belas Artes da Antuérpia, de formação muito clássica, começou a se transformar. Coco Chanel era o ideal de Madame Prijot. Lentamente, esse grupo de estudantes passou a se rebelar contra o sistema – algo que você verá na exposição, como repentinamente tudo se alinhou ao que acontecia internacionalmente. Na Antuérpia, estávamos muito atrasados. Lá, a mudança começou com o movimento punk. Esse foi o despertar, porque era fácil: você não precisava de dinheiro para ser punk. Bastava rasgar a camiseta, estampar algo. Isso se espalhou rapidamente pelo mundo. Acredito que o contexto é sempre importante. Um bom exemplo: quando a Comme des Garçons abriu sua primeira loja na Rue Étienne Marcel, em Paris, com piso de concreto, paredes brancas, tubos pretos, uma lâmpada e um toca-discos, nós dirigimos até Paris só para ver aquilo, porque foi uma verdadeira revolução no design de loja. Hoje isso é comum. Então, algo só é novo dentro de um contexto.

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The Antwerp Six, 1987, published in WWD, © Photo: Philippe Costes/Cortesia MoMu

Pensando nos materiais que compõem a exposição, há itens inéditos ou ainda pouco estudados que vocês reuniram? Houve peças que revelaram novas nuances na compreensão atual de vocês sobre os seis?

 

ROMY: Ficamos muito felizes porque, nos anos anteriores à exposição, recebemos uma grande doação de Dirk Bikkembergs, que entregou seu arquivo ao MoMu. Nossos colegas do centro de estudos fizeram a catalogação com Luc Willame, que fotografou todo o trabalho de Bikkembergs. Ann Demeulemeester também nos deu acesso, pela primeira vez, ao seu arquivo pessoal, o que foi incrível, porque ela manteve tudo impecavelmente organizado. É um verdadeiro tesouro – e um privilégio termos essa oportunidade. O arquivo de Walter Van Beirendonck também está chegando ao MoMu, o que é fantástico. Lembro que, no início, Geert reuniu os seis para uma conversa coletiva, revisitando memórias. Mas havia confusão, porque algumas coisas não foram lembradas corretamente, ou alguém disse uma coisa e outra pessoa disse outra. Portanto, quando começamos a fazer a linha do tempo, não sabíamos quantas vezes foram a Londres, ninguém se lembrava se foram quatro ou cinco vezes [risos]. Então esse material de arquivo, achar todos os convites e as fotos de quando estavam lá, foi algo que realmente nos ajudou a montar o quebra-cabeça e entender o que estava acontecendo. Hoje, temos convites, imagens deles juntos, fotos pessoais, dos estandes em Londres, desenhos, catálogos, cadernos de esboços e muito vídeo.

 

GEERT: Era uma época em que a gente não andava por aí com um iPhone. Não tirávamos muitas fotos do que estávamos fazendo. Esse fator não nos ajudou a encontrar os lugares, as pessoas ou as datas corretas. Foi realmente uma reconstrução do começo da história dos seis, com a ajuda de todos os seis, porque, nas nossas memórias, tudo começou de um jeito diferente. Acho bom fazermos isso agora, porque estamos registrando uma história que, caso contrário, aos poucos se perderia.

 

Estávamos falando da Academia Real de Belas Artes da Antuérpia e dessa rebelião contra o modo tradicional de ensinar, e a Antuérpia, até hoje, é uma das mais prolíficas incubadoras da vanguarda. Como essa instituição de ensino moldou essa geração específica de estilistas?

 

GEERT: Bem, com o sucesso dos Antwerp Six, de repente a Academia Real de Belas Artes da Antuérpia passou a receber muita atenção internacional. E Linda Loppa, que então era a chefe do departamento de moda da Academia, organizou isso de uma forma muito esperta. Ela fez o departamento evoluir e se tornar uma escola de moda internacional. Digamos que, dez anos atrás, 80% dos estudantes de moda eram estrangeiros, de toda parte do mundo. E, enquanto o departamento de moda de Antuérpia se concentra no desenvolvimento criativo, a La Cambre – o departamento de moda em Bruxelas da escola La Cambre – decidiu focar na preparação para trabalhar na indústria. Eram, portanto, dois tipos diferentes de formação em moda que funcionavam muito bem juntos. Indiretamente, isso acabou se tornando a origem de um tipo de sucesso dessas escolas de moda no cenário internacional – se você ver Anthony Vaccarello hoje na Saint Laurent, ou Matthieu Blazy na Chanel, eles vêm todos da formação belga em moda. Sem ter esse objetivo, os Antwerp Six iniciaram uma nova espécie de revolução no ensino de moda. 

 

Vamos falar sobre a moda belga em relação ao panorama internacional que temos hoje. Quando você falou desses estilistas alugando uma van para apresentar coleções em Londres, em 1986, isso foi um momento de ruptura que colocou Antuérpia de maneira firme no mapa da moda. Qual é a mensagem da exposição para a próxima geração de criadores belgas?

 

GEERT: Isso é difícil. Vamos pegar um nome: Demna [Gvasalia]. Ele saiu da mesma escola e se tornou um nome icônico da moda contemporânea, primeiro com a carreira na Vêtements, depois na Balenciaga e, agora, fará o mesmo na Gucci. Mas ele é um tipo diferente de criador; é mais um diretor de arte do que um estilista. E, por exemplo, quando me lembro de Ann [Demeulemeester], ela trabalhava como uma arquiteta: podia passar quatro dias trabalhando na forma de um ombro, cortando, colando, prendendo com alfinetes – construindo as roupas como uma escultora. Isso é outra coisa, diferente de ser um diretor de arte (sem nenhuma crítica ao Demna, porque eu o adoro e ele é muito bom no que faz), mas é uma abordagem diferente. Quando eu vejo Matthieu Blazy na Chanel, ele conseguiu modernizar o universo da Chanel deixado pelo Karl Lagerfeld, mas também de um jeito mais próximo à visão de um diretor de arte: o cenário, o casting, a comunicação em torno das roupas – isso é diferente de efetivamente trabalhar numa pequena parte de uma peça. E é por isso que nenhum dos seis jamais aceitou se tornar diretor criativo de uma grande maison. Alguns receberam esse tipo de convite, mas nunca aceitaram, porque não viam compatibilidade com o trabalho que faziam para si mesmos. Eles já trabalhavam dia e noite; então é outra mentalidade, a do que acontecia naquela época e do que acontece agora. Romy disse algo muito importante: eles escolheram ser eles mesmos e escrever a própria história. Foi uma escolha que fizeram, e é por isso que tiveram tanto sucesso. E, claro, nem sempre foi fácil; houve momentos difíceis em todas as carreiras, mas eles escolheram isso e foram em frente, cem por cento, todos eles. Ann Demeulemeester trabalhava sete dias por semana, de manhã à noite; a palavra “férias” não existia. Esse é o nível de dedicação, sabe? Essa é a diferença: se você trabalha para si mesmo, você não pode ser um estilista em meio período. Seria impossível.

 

The Antwerp Six
De 28 de março de 2026 a 17 de janeiro de 2027.
Antuérpia, Bélgica.

MoMu https://www.momu.be/en/ @momuantwerp

 

Este é um trecho da coluna Fashion Curated, de Antonia Petta, que integra a próxima edição da Numéro Brasil Homem. Em breve nas bancas e na Amazon. 

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