Pietro Maria Bardi na Pinacoteca do MASP, década de 1980 (Foto: Luiz Hossaka/cervo do Centro de Pesquisa do MASP)
Pietro Maria Bardi tinha uma biblioteca de moda e tanto. Entre os livros de sua coleção particular, constavam publicações como “La Femme en Culotte” (1899), um estudo de John Grand-Carteret sobre a introdução das calças no guarda-roupas feminino, refletindo a mudança do papel social da mulher que subvertia as normas de gênero através do vestuário, mas também "Il Vestuario Italiano del 1500 al 1550" (1940), de Leandro Ozzola, que se debruça sobre a roupa na primeira metade do século 16, infiltrado pelas ideias do Renascimento italiano. Seu interesse ia de “Mademoiselle Bertin – Ministre des modes La Reine Marie-Antoinette” (1911), em que Henri Leclerc investiga a vida da famosa marchande de modes e costureira de Maria Antonieta, até “Are Clothes Modern? An Essay on Contemporary Apparel”, publicação de 1947 que expandia a emblemática exposição de mesmo nome realizada no MoMA, com curadoria de Bernard Rudofsky. E então há “Style in Costume”, publicada em 1949 pelo inglês James Laver, com quem Bardi parecia compartilhar de uma ideia: a moda como parte essencial da visualidade de determinado período histórico. Segundo escreve Maria Claudia Bonadio, na visão de Bardi, não seria possível separar a moda da arte, visto que ambas estariam diretamente relacionadas e expressariam, cada uma à sua maneira, o "espírito do tempo".
Parece apropriado, portanto, que tenha sido Bardi, primeiro diretor artístico do MASP, quem iniciou o movimento para a introdução da moda dentro do maior e mais importante museu moderno do Brasil. Hoje, a gente sabe: era mais do que um interesse particular no assunto. “Era um projeto, mesmo, de pensar um museu que desse conta de um acervo de moda”, explica a curadora, pesquisadora e escritora Hanayrá Negreiros, que atuou entre 2021 e 2022 como curadora-adjunta de moda no MASP. “Pietro tinha um comprometimento com a moda. Uma visão, eu diria, até de vanguarda, no sentido de entender que para um museu de arte ser um museu inteiro, ele deve contemplar a moda e o vestuário – para ele, esse vínculo era muito claro”, completa a pesquisadora, professora, escritora e figurinista Carolina Casarin.
Neste 2025, Hanayrá e Carolina ministraram um curso inédito no museu: “As Roupas que um museu guarda: a moda na coleção do MASP”, iniciativa que já cumpriu seu rito em duas bem sucedidas edições, com quatro encontros cada. Atuando como um convite à descoberta do tecido que une moda, arte e curadoria, o curso tem a presença da roupa no museu paulistano como ponto de partida, percorrendo uma cronologia de mais de setenta anos de moda. A história é grande, por isso pediu recortes precisos: há o olhar inaugural sobre Pietro e a formação da coleção, evocando dois importantes desfiles em meados do século XX; a inovação e a tensão entre moda e artes visuais na Coleção Rhodia; a fronteira sutil do que se define como “kitsch” no patrimônio, ilustrada por exemplares que pertenceram a figuras como Hebe Camargo; e, por fim, as temáticas de gênero, raça e classe que costuram o presente e a nova museologia à história da arte e da cultura no Brasil.
(Fotógrafo desconhecido, publicado originalmente no Diário de São Paulo/Acervo do Centro de Pesquisa do MASP/Divulgação)
Legenda: Da esquerda para a direita, Pietro Maria Bardi, as modelos Silvie, Alla, Sophie e Betina, a arquiteta Lina Bo Bardi e Paulo Franco, no contexto do Desfile Dior no MASP, 1951
A SEÇÃO DE COSTUMES
O MASP foi inaugurado em outubro de 1947, na Rua Sete de Abril. Foi desse endereço, antes da mudança para o prédio-ícone de Lina Bo Bardi na Avenida Paulista, que saíram em junho de 1951 uma série de cartas de Pietro Maria Bardi endereçadas a museus internacionais, em especial da América Latina (como o Museu Nacional de Arte Hispana-Americana, na Argentina, e o Museu de Arte Popular Americano, no Chile), solicitando doações para uma nova “seção de costumes” do Museu de Arte de São Paulo. Se essas cartas foram respondidas ou não, parece não ter importado muito para Bardi que, como lembra Bonadio, continuaria investindo esforços na formação de um acervo até o fim da década de 1980.
“Durante nossa pesquisa com a documentação, descobrimos um lado de Bardi pouco conhecido: o de articulador. Entendemos como ele ativou seus contatos, para quem ele mandava telegramas e quais eram as redes que ele conectava, da França à Inglaterra, mas também olhando para o Sul global”, conta Hanayrá. “Essa ‘seção de costumes’ que ele queria estabelecer, se guardadas as proporções, seria uma espécie de Costume Institute, como o do Metropolitan Museum of Art, em Nova York”, explica Carolina, citando um telegrama enviado por Bardi em 1951 com destino à Polaire Weissmann, à época diretora executiva da seção de moda do MET. Ainda que a articulação tenha ganhado contornos internacionais, tudo indica que as primeiras peças de moda incorporadas ao acervo do museu tenham vindo das mãos de um brasileiro: cinco vestidos de Christian Dior doados por Paulo Franco, nome por trás de uma das boutiques mais importantes da capital paulista. Fato curioso: a grife francesa chegou a fazer um desfile dentro do museu, em 1951 (quem passou pelo novo edifício da instituição, inaugurado este ano e apropriadamente batizado de Pietro Maria Bardi, pôde conhecer um tantinho mais dessa história na exposição “Cinco Ensaios Sobre o Masp – Histórias do Masp”, que exibia uma foto do happening de moda franco-brasileiro).
(Acervo do Centro de Pesquisa do MASP/Divulgação)
Legenda: Sophie, modelo parisiense, desfila no MASP da Rua 7 de abril com roupa baseada em modelo desenhado por Salvador Dalí, 1951
OS DESFILES NO MUSEU
“É espantosa a relação que a moda estabelece com o tempo”, nos lembra Carolina. A afirmação reverbera com significados múltiplos mas, no contexto em que foi dita, na aula inaugural do curso, dizia respeito ao tema escolhido para um desfile emblemático realizado dentro do MASP em 28 de março de 1951. Com uma plateia que fazia a mélange da alta sociedade com a classe artística (a saber: Lasar Segall constava entre os convidados), o “Desfile de Costumes Antigos e Modernos” foi idealizado em três atos. No bloco do passado, havia confecções baseadas em peças dos séculos anteriores, vindas da Union Française des Arts du Costume (cujo acervo seria mais tarde integrado ao Musée des Arts Décoratifs, formando hoje o Musée de la Moda et du Textile, em Paris). No presente, havia modelos da alta-costura da Christian Dior, trazidos de Paris especialmente para a ocasião (e desfilados por modelos internacionais, como a top model francesa Sophie). Representando o futuro, um único modelo, possivelmente o mais memorável da noite: “Costume de 2045”, look composto por macaquinho em jérsei de seda azul esverdeado com sobressaia, luvas, um cajado de veludo vermelho e ainda um chapéu-antena, baseado em um desenho feito pelo surrealista Salvador Dalí no ano anterior.
Segundo os registros, foi confeccionado pela figurinista Barbara Karinska – “embora existam documentos que atribuam sua produção a outros ateliês”, pontua Hanayrá, jogando luz sobre um importante aspecto do curso: a pesquisa que antecedeu as aulas. É que, embora bem urdida, a trama da moda dentro do MASP trata de uma história na qual, eventualmente, se encontram buracos. “Esse curso é fruto de muitas camadas de tempo, silêncios e lacunas”, revela Carolina, refletindo sobre os seis meses em que a dupla se dedicou à elaboração do currículo, concebido a partir de uma pesquisa que se debruçou sobre os estudos acadêmicos de autoras como Bonadio, mas também Patrícia Sant’Anna e Ana Júlia Melo Almeida, além de uma série de investigações feitas diretamente nas gavetas do acervo e dentro do Centro de Pesquisa do MASP – tudo alinhavado pelas ministrantes com perspicácia contemporânea, vale dizer.
(Fotógrafo desconhecido/Acervo do Centro de Pesquisa do MASP/Divulgação)
Legenda: O Desfile de Moda Brasileira, realizado em 1952 no MASP
Em 06 de novembro de 1952, um outro desfile realizado no MASP daria conta de um questionamento ainda atual: o que seria, afinal, a moda nacional? “Moda Brasileira” levou à passarela instalada no museu 50 peças cujas estampas e modelos foram criados por designers e artistas que atuavam no IAC (o Instituto de Arte Contemporânea, considerado a primeira escola de design e desenho industrial do país), uma iniciativa que aproximava a missão do museu à ideia da educação – para a nossa sorte, presente até hoje no diálogo da instituição com a sociedade.
Evocando temáticas da cultura brasileira, nomes como “Itapetininga”, “Cascavel” e “Cachoeira” batizaram os looks (“Macumba”, por exemplo, dava conta de um look cuja estampa foi assinada pelo artista Carybé, sobre modelagem elaborada por Lina Bo Bardi).
(Foto de Ilana Bessler/MASP/Divulgação)