22 Kaoru Hirano, do casulo ao fio da seda

Kaoru Hirano, do casulo ao fio da seda

Arte

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Existem dezenove tons de branco catalogados no Japão. Vale pensar: essa precisão cromática talvez revele menos sobre a ótica e mais sobre a alma de uma cultura inclinada a enxergar o que o resto do mundo às vezes não vê. É sob essa premissa que a Japan House São Paulo costura sua nova exposição, Shiro: Uma Escala de Nuances. Com curadoria de Natasha Barzaghi Geenen (cuja faísca inicial foi acesa a partir da leitura de “O País das Neves”, lançado em 1948 pelo escritor japonês Yasunari Kawabata), a mostra divide o espectro do branco – ou: shiro – em quatro eixos: papel, neve, sal e seda. Em um exercício poético de tradução, o branco funciona como um ponto de partida para mapear as complexidades de uma nação que se expressa por sutilezas que a pressa ocidental costuma apagar.

 

É justamente no eixo da seda que a artista Kaoru Hirano instala sua arqueologia afetiva. Conhecida pela exploração da memória têxtil (desfazendo e reconstruindo, fio a fio, roupas antigas e itens históricos), a artista de Nagasaki traz para São Paulo uma obra que é, em essência, uma revisão da trajetória de seu próprio sangue: Hirano resgata um tear de madeira de sua avó materna e o tensiona com os fios desfiados de um kimono de sua avó paterna. O trabalho manual, executado quase inteiramente com as pontas dos dedos, desafia a resistência milimétrica da seda em uma imagem poderosa: ao serem libertados de sua estrutura original, os fios encolhem – uma movimentação que, para ela, remete à vontade própria do material, de voltar ao estado de casulo.

  • Artista baseada em Hiroshima, Kaoru Hirano explora a memória através de investigações têxteis (Foto: Cortesia Japan House São Paulo)

    Artista baseada em Hiroshima, Kaoru Hirano explora a memória através de investigações têxteis (Foto: Cortesia Japan House São Paulo) Artista baseada em Hiroshima, Kaoru Hirano explora a memória através de investigações têxteis (Foto: Cortesia Japan House São Paulo)

No Brasil para a instalação da obra (que levou mais de três meses entre a concepção e a finalização, em solo nacional) Hirano fez um pequeno intervalo para falar com a Numéro Brasil sobre o fazer manual, ancestralidade e a memória que habita a roupa.

 

Qual é a sua relação, pessoal e profissional com a seda?

É a primeira vez que trabalho com seda. Para mim, tem sido uma forma de pensar o que é a arte. Em fevereiro deste ano, abriu no Museu de Arte Moderna de Hiroshima uma exposição com uma obra minha que inclui o equipamento inteiro de uma máquina de tear específica para seda, que pertencia à minha avó por parte materna. Até então, eu não trabalhava focando no material – não começava pensando se era seda, poliéster ou algodão. Eu focava mais em como essas peças eram utilizadas e, a partir daí, fazia a escolha dos materiais. A partir dessa exposição no Japão, comecei a refletir mais sobre a questão histórica e também da importância industrial dessa máquina para o país. E foi justamente nessa época que recebi esse convite da Japan House para trabalhar especificamente com seda. Lembrei que a minha avó paterna, da parte de Nagasaki, usava kimonos. Com ajuda da minha mãe, fomos procurar peças dela e encontramos esse kimono que, por coincidência, não era apenas de seda, mas também branco. Uma escolha perfeita para essa exposição.

 

E como funciona esse processo de trabalho?

Minha produção é majoritariamente feita à mão. É um processo bastante simples. Na verdade, eu vou desfiando fio a fio com a mão. Só que, às vezes, a linha acaba quebrando. Nessas horas, acabo usando um alfinete, ou uma agulha, mas não se trata de um equipamento, não tenho uma ferramenta específica para isso. No caso dessa obra, senti a diferença entre os materiais com os quais eu costumava trabalhar, como o algodão – na seda o fio é muito, muito mais fino. Por essa razão, notei que, conforme você vai desfiando a linha, ela vai encolhendo, se recolhendo. Era como se esses fios quisessem voltar ao estado de casulo.

 

“Conforme você vai desfiando a seda, ela vai encolhendo, se recolhendo. Era como se esses fios quisessem voltar ao estado de casulo”

 

 

O tear de madeira e o kimono carregam a biografia de suas avós. Ao reunir a ferramenta de produção de uma e a vestimenta da outra, que tipo de relação você procurou desenhar?

A máquina de madeira que compõe a obra pertenceu à minha avó, da parte materna, da província de Fukushima. Acabei descobrindo que até pouco tempo depois da 2ª Guerra Mundial, uns 80 anos atrás, era bem comum nessa região ter esse objeto em casa. A cultura do bicho da seda no Japão era uma coisa muito ampla; essa parte da minha família também trabalhava na agricultura, criava o bicho de seda. Por isso, minha avó também fazia tecidos através desse material. Temos aqui a questão da memória do corpo, porque ela usou esse kimono enquanto estava viva. Além disso, como ela fazia kimonos, ela mesma os costurava – provavelmente, foi ela quem costurou essa peça. Para mim, essa questão da memória e do cotidiano de uma mulher japonesa é muito presente. Enquanto eu trabalhava em cima dessa peça, senti que estava tateando toda essa memória, de certa forma.

 

 

“Shiro: Uma Escala de Nuances”

Japan House São Paulo

Até 25 de outubro de 2026

japanhousesp.com.br

  • Kaoru Hirano, do casulo ao fio da seda Kaoru Hirano, do casulo ao fio da seda
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A obra de Kaoru Hirano integra o núcleo da seda dentro da nova mostra da Japan House (Foto: Cortesia Japan House São Paulo)

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