"Tudo o que ganha contorno no mundo é a manifestação de uma inteligência que busca, incansavelmente, novos modos de existir." A frase de Germano Dushá sintetiza o espírito de Lygia Pape (1927-2004), cuja obra ocupa ambos os espaços da galeria Mendes Wood DM, em São Paulo, com a exposição Sendo. O título da mostra faz referência direta a um dos seus Poemas Luz (1956-1957), série na qual a palavra "sendo" surge atravessada pela luminosidade em placas de acrílico. A escolha do gerúndio não é um mero detalhe linguístico: aponta para uma ação em processo, o estado contínuo de uma produção artística que jamais aceitou se fixar."
A recusa pelo estático começou cedo: Pape iniciou sua trajetória no Concretismo, se tornando mais tarde uma das fundadoras do movimento Neoconcreto, cujo manifesto leva sua assinatura. Na busca por aquilo que é vivo e experiencial, transbordou os limites tradicionais das galerias de arte para dialogar também com o design – incluindo nisso o design de moda. "No início da carreira, ela criou roupas e jóias de forma autoral; participava de outros meios de expressão onde pudesse criar coisas interessantes", conta a filha da artista, Paula Pape. “Sua obra reverbera de forma ampla até hoje porque ela pensava a arte como experiência participativa, um combustível fundamental para a fruição das propostas. Lygia Pape não se satisfazia com o que se notava em um primeiro contato – tinha a intenção de provocar, sutilmente, a expansão contínua da percepção”. Diretora do Projeto Lygia Pape, que participou da curadoria da mostra, Paula falou à Numéro Brasil sobre o legado artístico em exposição.
“Sendo” percorre cinco décadas da produção de Lygia Pape. Como o Projeto Lygia Pape pensou a colaboração curatorial com a galeria para construir uma leitura da artista que dialogue não apenas com sua importância histórica, mas também com a sua potência contemporânea?
A colaboração curatorial partiu da vontade de apresentar uma Lygia Pape em permanente estado de invenção, evitando uma leitura exclusivamente histórica ou cronológica. Por ser uma artista que transitava entre diferentes linguagens, como gravura, pintura, instalação, filme, performance, e cuja produção muitas vezes depende da interação e ativação do espectador, o espaço assume um papel fundamental na construção da exposição. Cada obra estabelece relações sensoriais e espaciais, reforçando a dimensão viva e experiencial no legado da artista. A obra de Lygia Pape possui ainda uma característica muito singular: dependendo da curadoria e das relações estabelecidas entre os trabalhos, ela gera combinações e leituras sempre fluídas e diferentes, quase como uma “poção mágica” criada a partir da mistura de diferentes ingredientes. Ao aproximar obras, técnicas, períodos e experiências distintas, surgem novos significados e conexões inesperadas. Sua produção esteve em permanente estado de invenção e continua, até hoje, em permanente estado de interpretação. Trata-se de uma obra atemporal, aberta e viva, capaz de criar novos sentidos a cada contexto expositivo e de revelar conexões entre tempos, linguagens e experiências.
Na sua visão, quais aspectos da obra de Lygia Pape mais reverberam na produção artística contemporânea, incluindo influências para além das artes visuais, como na moda e no design?
Todos. O material de cada obra, a luz, o espaço, o espectador; tudo participa, de forma que o trabalho chega a extrapolar o limite da obra plástica pura e simples. Ela faz pensar. Certa época, ela foi contactada por uma agência de publicidade devido às embalagens da Piraquê, que todos adoravam. O seu trabalho é elegante e atemporal e inspiração de artistas mais jovens e de designers também. No início da carreira, criou jóias e roupas de forma autoral, então participava de outros meios de expressão onde pudesse criar coisas interessantes. Ela também trabalhou em cinema fazendo letreiros, manteve grandes amizades no Cinema Novo, era amiga dos grandes diretores que mostravam os filmes em primeira mão em sua casa no Jardim Botânico, e a partir dessa convivência também realizou seus próprios filmes. A obra de Lygia Pape era tudo e mais um pouco que reverbera de forma ampla até hoje, porque ela pensava a arte como experiência participativa; combustível fundamental para a fruição das propostas. Contudo, sua característica principal está além do que parece óbvio e já estabelecido.
“Lygia Pape não se satisfazia com o que se percebia em um primeiro contato – ela tinha a intenção de provocar, sutilmente, a expansão contínua da percepção”.
A mostra acontece no ano que antecede o centenário de Lygia Pape. Como enxergam esse legado ganhando novas camadas de leitura nesse marco?
O centenário representa uma oportunidade importante para ampliar e atualizar as leituras sobre a obra de Lygia Pape, ressaltando sua dimensão experimental e sua enorme influência sobre a arte contemporânea. Mais do que celebrar um legado consolidado, interessa ao Projeto Lygia Pape ativar novas perspectivas críticas, reforçando a artista em debates atuais e a fruição por parte de públicos diversos. Além disso, o Projeto Lygia Pape vem trabalhando há mais de 20 anos, de forma incessante, na catalogação do acervo e na documentação da artista. Esse trabalho contínuo de pesquisa permitirá que essa comemoração de centenário resulte em uma exposição muito mais rica e abrangente do que qualquer outra já realizada sobre sua trajetória. Estão sendo desenvolvidos projetos em diálogo com instituições brasileiras e internacionais, incluindo exposições, ações editoriais e iniciativas voltadas à difusão do acervo e do pensamento da artista. A ideia é justamente reforçar que Lygia nunca esteve, e nunca estará rotulada dentro de um único movimento, linguagem ou período da história da arte. Sua obra escapa constantemente de classificações definitivas. Mesmo nos anos 1950, em um contexto amplamente dominado pelos homens, Lygia já quebrava barreiras com uma atuação radicalmente livre e inovadora. Ela esteve muito à frente de seu tempo, e talvez, em muitos aspectos, até mesmo à frente do nosso.
“Sendo”, Lygia Pape
Galeria Mendes Wood DM
São Paulo
Exposição aberta à visitação até 1º de agosto de 2026 (na unidade da Barra Funda) e 08 de agosto de 2026 (na Casa Iramaia).