Cearense de nascimento e paulistana de carreira, Andrea Pinheiro aplica a lógica da eficiência nos negócios em seu segundo mandato à frente da Bienal de São Paulo.
Nascida em família de banqueiros, a cearense Andrea Pinheiro traçou uma sólida carreira de mais de 30 anos no mercado financeiro antes de se lançar no que ela considera uma importante reinvenção: "Saí do banco e virei presidente da Bienal; foi o meu pulo mais ousado, e tenho muito orgulho disso", conta ela, que foi vice-presidente do BMC (instituição que permaneceu por quatro gerações em sua família, até ser vendida para o Bradesco, em 2007), antes de fundar o BR Partners em 2009 e atuar como manager director e COO.
Mas como o universo das finanças e das artes se entrelaçam? "A Bienal é uma empresa complexa. Temos mais de 80 funcionários, um orçamento grande e uma logística pesada. Trouxe o rigor da gestão, a administração de custos, a implementação de KPIs e uma lupa sobre decisões estratégicas", conta. Tem dado certo. Na última edição da mostra, todos os números aumentaram — tempo de exposição, público, patrocinadores e alcance do programa educativo. Reeleita para um novo biênio à frente da Bienal de São Paulo, a segunda mais antiga do mundo, Andrea recebeu a Numéro Brasil em seu apartamento, em São Paulo (cidade que adotou há 40 anos), para um balanço do primeiro mandato e a apresentação das metas para o próximo, que vai até 2027.
Você acaba de ter seu mandato à frente da Bienal de São Paulo renovado para mais um biênio. Depois de dois anos intensos, o que você traz como conquista, e quais são as próximas metas? Acho que as principais conquistas envolvem o programa educativo. Sempre foi o que mais me encantou na Bienal. Ele existe desde 1953 e é um dos mais antigos do mundo. Nós quase dobramos o alcance: fomos de 66 mil para 113 mil pessoas, sendo 90 mil crianças e adolescentes. Meu objetivo é continuar ampliando isso. É aquele objetivo que, quando a gente alcança, a gente dobra a meta [risos]. Também fico muito feliz com o aumento de quase 20% de público. É algo que gostaria de avaliar para este biênio: se há espaço para ampliar mais. Tivemos uma média de 7 mil pessoas por dia, mas janeiro foi uma surpresa, com 10 mil visitantes diários. Foi a primeira vez em 50 anos que a Bienal teve mais de três meses de duração. Obviamente, essa ampliação envolve custos e logística, mas quero avaliar. Afinal, acredito que, se você quer aproximar a arte do público, tem que oferecer tempo. A Bienal de Veneza, por exemplo, fica aberta mais de seis meses.
Outro marco importante desta Bienal são as mostras itinerantes, certo? Elas já aconteciam antes de mim. São 11 no Brasil e três fora. Elas têm um papel enorme na democratização, levando a arte para quem não pode vir a São Paulo. Estamos indo de Belém a Curitiba. São três mostras no Nordeste: Fortaleza (minha cidade), Salvador e Recife, além de Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro e Curitiba. Provavelmente não aumentaremos esse número, porque ainda temos a Bienal de Veneza no meio, que dá um trabalho enorme.
Como é a representação brasileira em Veneza neste ano? Muito potente. Temos Adriana Varejão e Rosana Paulino, com curadoria da Diane Lima. São três mulheres, estou muito orgulhosa disso. Mas a organização é uma loucura: lista de convidados, eventos, logística... Eu volto de lá exausta, pedindo para ninguém falar comigo por uma semana.
Como começou a sua relação com a arte? Vem da infância. Eu sou do Ceará, um estado com muita arte, desde o Chico da Silva [nome forte da arte naïf brasileira, ele nasceu no Acre, mas aos 10 anos mudou para o Ceará] até as rendeiras e artesãos. Cresci no fim dos anos 1960 e tive oportunidade de viajar jovem e morar fora. Meus pais me levavam a tudo — a princípio, contra a minha vontade. Não era para visitar arte contemporânea, mas o estilo deles: museus clássicos, óperas, concertos e literatura. Por sorte, tive pais que incentivaram esse lado artístico, embora eu sempre soubesse que queria trabalhar em banco, já que venho de uma família de banqueiros. Mas, de certa forma, a arte sempre esteve na minha vida. Também visitei muitas exposições com meu marido. Porém, entrei nessa "de cabeça" quando o José Olympio [Pereira, que comandou o Credit Suisse e o Banco J. Safra] me convidou para a Bienal. Primeiro, como diretora, depois como vice-presidente. São sete anos imersa nesse mundo, em um nível de troca muito diferente do que eu tinha antes.
Como foi esse convite do José Olympio para você participar da gestão? O Zé precisava de alguém para ajudá-lo na captação de recursos. Como ele também vem do mercado financeiro, compartilhamos networking. Quando ele me chamou, eu já sabia que, ao me aposentar, iria me dedicar ao terceiro setor. Achei que trabalharia com educação, mas o destino se apresentou e eu entrei na Bienal. De certa forma, fiquei próxima desse universo por meio do programa educativo, que promove uma inclusão incrível. Quero permitir, através da arte, que as pessoas se sintam parte da sociedade. Muitas delas não têm acesso ao Parque Ibirapuera, nem à arte. Quando vão à exposição, elas veem que são bem-vindas, se enxergam naquelas paredes e nos artistas. O programa educativo forma esse novo público. Temos exemplos maravilhosos: o Thiago de Sousa e a Keyna [Eleison], curadores da última edição, tiveram na Bienal uma de suas primeiras grandes experiências com arte na vida. Veja só, o poder de abrir horizontes! Nosso time educativo é muito forte, com mediadores preparados por mestres e doutores em treinamentos que duram 200 horas. Estamos fortalecendo isso também nas itinerâncias, como faremos em Brasília.
Como seu olhar do mercado financeiro se adaptou ao mundo das artes, e o que a Bienal ganhou com essa sua bagagem? Não fui contratada por ser uma expert em arte, mas porque a Bienal é uma empresa complexa. Temos mais de 80 funcionários, um orçamento grande e uma logística pesada. Sempre fui uma gestora — fui COO da BR Partners, vice-presidente do Banco BMC. O que eu trouxe foi o rigor da gestão, a administração de custos, a implementação de KPIs [key performance indicators] e uma lupa sobre decisões estratégicas. O Zé Olympio é um grande amigo e me "enrolou", dizendo que eu dedicaria pouco tempo à Bienal [risos]. A verdade é que nem eu, nem ele, somos de dedicar pouco tempo a nada. Saltamos de 18 patrocinadores em 2018 para 48 em 2023.
E o que a arte trouxe para a sua vida? Um recomeço. Eu me reinventei com 50 e poucos anos. Saí do banco e virei presidente da Bienal; foi o meu pulo mais ousado, e tenho muito orgulho disso.
Falando em reinvenção, você completa 60 anos neste ano. Como vê esse marco? Acho um marco poderoso. Você está saudável, produzindo, construindo. E importante, especialmente em um mundo onde as mulheres se tornam invisíveis depois dos 50. Tenho muito orgulho dos meus 60.
Você é apenas a segunda mulher a presidir a Bienal, depois de Maria Rodrigues Alves nos anos 1990, mas é a primeira a completar um ciclo inteiro e entregar uma edição da mostra. Acredita que existe um "olhar feminino" na gestão? Passei 35 anos trabalhando com homens. Não consigo identificar em mim o que é feminino ou masculino: enxergo a pessoa. Mas acho essencial dar exemplos para as gerações mais novas. Comecei em banco nos anos 1990, e o mundo era outro. Noto que as mulheres jovens, às vezes, elaboram demais e não se posicionam em reuniões, enquanto os homens não têm medo de falar. Cabe às mulheres mais velhas ensinar as mais novas a serem assertivas. Se a coisa mais importante da minha vida foi ser mãe, também tive uma carreira muito desafiadora. Mostrar que é possível administrar os dois papéis é fundamental.
Há muitas mulheres no mundo brasileiro das artes. Como é a troca entre vocês? Intensa. Temos mulheres maravilhosas: a Paula Azevedo em Inhotim, a Fernanda Feitosa na SP-Arte, galeristas históricas como a Raquel Arnaud, a Luisa Strina e a Nara Roesler. Eu sou super a favor de que mulheres se ajudem. Competir entre nós seria muita miopia.
Como é a sua coleção pessoal de arte? Eu não me considero uma colecionadora, como o Zé Olympio ou o Heitor Martins. Amo arte, mas a minha coleção é o que tenho na minha casa. É uma relação de amizade que, na Bienal, virou um casamento. Minha primeira obra talvez tenha sido um Arcangelo Ianelli [pintor, escultor, ilustrador e desenhista paulistano] que ganhei dos meus pais, mas não tenho certeza.
É verdade que você tem uma história de amor que envolve o Pavilhão da Bienal? Quando conheci meu marido, ele me convidou para ir à Bienal de 2002. Foi em março. Naquele dia, saindo de lá, demos o nosso primeiro beijo. Então o prédio [da Bienal] do Oscar Niemeyer também é cenário da minha memória afetiva. Meu marido é dono de uma empresa de engenharia [a Racional Engenharia] e construiu o novo prédio do MASP, por exemplo. Temos essa conexão forte com as instituições. Hoje sou conselheira do MASP, patrona da Pinacoteca e do Grupo Corpo. Já me ofereci também para ser a primeira patrona da Pinacoteca do Ceará, quando criarem o programa de patronato por lá.
Curiosamente, seus filhos acabaram seguindo seus dois caminhos, não? Sim. É incrível como cada um parece ser um lado meu. Tenho uma filha de 33 e um de 26. Meu filho trabalha em banco, na BR Partners [do qual Andrea é uma das fundadoras], e minha filha trabalha com arte, na Kura, da Camila Yunes Guarita [curadora desta Numéro]. Ela ainda foi para o mercado da arte antes de mim — trabalhou com a Nara Roesler em Nova York.
Como você constrói sua imagem para transitar entre o conselho da Vivo ou do FGC [Fundo Garantidor de Crédito] e a vernissage da Bienal? Seu estilo mudou? No começo, no mercado financeiro, eu usava terno e camisa para me "misturar aos homens". Com o tempo e a segurança, deixei minha personalidade aparecer. Ainda sou muito clássica, mas fiquei mais divertida. Não tenho um look para arte e outro para o conselho. Sou eu mesma em todos os lugares.
E o que você consome de moda? Quais são as suas grifes favoritas? No momento, eu e o resto do mundo estamos fascinados pela Chanel. Acho que o Matthieu Blazy conseguiu, respeitando as origens, reinventar a marca, que estava um pouco cansada. Era formal até para mim. Também gosto muito da Bottega Veneta, que, justamente, tinha o Blazy como diretor. No Brasil, também gosto da Pinga, que tem ótimas marcas brasileiras, da Egrey, que é bem clássica, da Bettina de Luca e da Lilly Sarti, que é minha amiga.
Você tem uma peça, uma roupa, um acessório, algum look que é muito especial para você? O meu vestido de casamento, do meu segundo casamento — estamos juntos há 24 anos. Foi um tubinho feito para mim na Daslu, muito simples, mas guardo com carinho pelo que representa.
Para encerrar, quais exposições você viu recentemente e recomenda? Acabei de voltar de viagem com notícias fresquinhas. A exposição do Lucian Freud, na National Portrait Gallery, e a da Tracey Emin, na Tate, em Londres, estão lindas. Em Milão, a Fundação Pirelli e a Fundação Prada são imperdíveis. Vi uma exposição do Anselm Kiefer no Palazzo Reale com obras gigantescas, muito impressionante.
E o futuro? Se viajarmos para o fim de 2027, o que quer ter deixado? O principal da Bienal é a exposição. Quero que as pessoas se sintam tocadas por ela. Elas podem até não gostar, mas quero que sejam impactadas. Minha meta também é sentir que contribuí para a série de excelentes gestões que vieram antes de mim. Cada um de nós foi dando uma contribuição adicional, e quero somar também.