02 Fashion Curated: a Casa de Acervo do Teatro Oficina

Fashion Curated: a Casa de Acervo do Teatro Oficina

Cultura

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Rumo ao 70º aniversário, o Teatro Oficina inaugura uma Casa de Acervo para seus figurinos, catalogando e preservando parte valiosa da memória do teatro brasileiro. Um patrimônio que se recusa a sair de cena.

De uma fotografia afixada na parede, os olhos da atriz Cacilda Becker parecem observar diretamente a garrafa térmica com café sobre a mesa. “Ela era ‘do trabalho’. Essa casa também é do trabalho”, diz Elisete Jeremias quando me encontra admirando a cena. Desde 2023 na direção geral da recém-inaugurada Casa de Acervo do Teatro Oficina Uzyna Uzona e há mais de um par de décadas colaborando com a companhia, Elisete é também, e irremediavelmente, “do trabalho”, o que pode significar estar à frente da direção de cena (atividade que lhe rendeu um prêmio Shell pela montagem de Os Sertões em 2005) ou subindo os múltiplos lances de escada dessa casa, carregando sacos pesados, preenchidos com figurinos de peças teatrais. O fato de que veio de seu próprio lar a televisão usada para consultar gravações de espetáculos é o menor dos indicativos de sua dedicação incondicional à companhia.

 

Estamos em um sobrado antigo, a menos de um quilômetro do teatro projetado por Lina Bo Bardi e Edson Elito, ícone da arquitetura modernista-brutalista, fincado no bairro paulistano do Bixiga (apesar do desgaste e esvaziamento de sentido da palavra, “icônico” ainda é o melhor termo que se aplica aqui). É nesse novo espaço, em oito salas distribuídas por três pisos, que funciona o núcleo de organização, catalogação e preservação de figurinos, adereços e objetos de cena do Oficina; um conjunto de 3 mil itens (“mas a gente chega em 5 mil, vocês vão ver”) que carrega o legado da companhia fundada há 67 anos por José Celso Martinez Corrêa (1937-2023). Em outras palavras, uma porção valiosa da memória do teatro brasileiro.

 

Um detalhe singular atravessa a iniciativa: trata-se da salvaguarda de um patrimônio vivo. Muito vivo. “Não é como um museu. Legado, para nós, é ter as peças no corpo”, define Marcelo Drummond, presidente da companhia, ao explicar que a vocação da Casa de Acervo é a de olhar pelas peças, garantindo sua integridade e perenidade, justamente para que se mantenham em uso, com sua potencialidade explorada no palco, não mantida sob uma redoma de vidro. Por essa razão, além de alimentar as suas próprias produções, o Oficina também passa a disponibilizar parte do acervo para locação, com ênfase e valores especiais para outros grupos de teatro.

 

“Nessa companhia, tudo é sobre encantamento”, diz a artista, atriz, encenadora e gestora

 

Fernanda Taddei. “Estamos falando de uma companhia de repertório, com quase 70 anos, então esse acervo permanece vivo porque é acessado para as próprias produções da casa. Mas há também o lado da materialidade: aqui, a palavra precisa ser encantada quando sai da boca. O corpo, o espaço, o território, a arquitetura; tudo está sob esse encantamento. E tanto a Elisete quanto a equipe têm essa dimensão, de que a matéria precisa estar incorporada nisso também”, completa Fernanda, no Oficina desde 2015. De fato, para além do apoio que chegou via edital ProAC da Secretaria de Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, foi pelo encantamento que paira sobre o espírito coletivo (ou, como nota Fernanda, a paixão exaltada na forma de verdadeiro mutirão) que se mantiveram vivas as peças que hoje compõem o acervo. No Oficina, além de vestir os figurinos em cena, não é incomum que os integrantes do grupo também os costurem e auxiliem em sua organização. Um nome incontornável nessa história é o de Cida Melo, que, desde sua mudança de Sergipe para São Paulo, em 1999, dedica-se à companhia como camareira-chefe. “Nossa maior guardiã”, como define Elisete.

 

Na etapa mais recente dessa missão, o projeto contou com uma oficina de conservação e restauro ministrada pela expert Cláudia Nunes, referência técnica na área têxtil dentro do Iphan, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. No passado, Cláudia restaurou, entre outros objetos de importância nacional, um lenço que pertenceu a Dom Pedro II – sob a ótica cultural, algo imbuído de tanto valor quanto um figurino do Oficina, que pode ser considerado mais do que um arranjo estético feito a partir de tecido: por meio da combustão artística gerada no palco, o figurino se aproxima de algo como uma entidade viva, um amuleto ou parte de um ritual. Quem já se sentou num dos andaimes do teatro para assistir a uma récita sabe do que estou falando.

 

Hoje operando como reserva técnica, a Casa de Acervo organiza seu repertório por ordem cronológica, compreendendo cerca de 50 produções de espetáculos apresentados nos últimos 35 anos. Uma história que inclui um capítulo fundamental sobre o encontro da resistência política com a renovação artística no Brasil. Como diz Fernanda, trata-se também de “uma trajetória de linguagem em permanente revolução”, cuja inclinação para a mudança parece permear cada uma das etapas da companhia. Assim como, a cada montagem, o fundador poderia fazer experimentações e revisões sobre um mesmo texto, conferindo à dramaturgia uma interpretação cultural mais atual, há figurinos no acervo que também podem ser revisitados e modificados conforme o impulso criativo pedir. “No momento em que a companhia começa a leitura e os ensaios de uma peça, ela recorre ao seu acervo. Primeiro consultamos o que temos, para só depois partir para a produção de novos figurinos; é um processo sustentável”, defende Elisete.

 

Alguns figurinos resistem à transformação (e é justamente nessa resistência que afirmam sua potência). Grande parte desses habita a seção de Repertório, com artigos de Os Sertões (2000- 2007) e Esperando Godot (2022). E então há a seção de Raros, que, embora intocável, paradoxalmente reflete o princípio de renovação constante do Oficina. Se em 1967 o mundo viu pela primeira vez uma encenação de O Rei da Vela (peça baseada no texto escrito em 1937 por Oswald de Andrade e marco do modernismo e tropicalismo, citando a insubordinação às relações de poder dentro do contexto de autoritarismo e censura do regime militar), no acervo é possível encontrar peças usadas por Vera Valdez (1936-2026) assinadas pela figurinista Gabriela Campos em montagem realizada em 2017, durante o cinquentenário de sua estreia. Foi também no corpo de Vera que entrou em cena, em 2018, o parangolé construído a partir de telas vermelhas, azuis e amarelas que integra os figurinos de Roda Viva. Isso, exatas cinco décadas após a produção inaugural, em 1968, da obra dramatúrgica escrita por Chico Buarque, que segue como um emblema da luta artística pela liberdade de expressão (e que, à época da estreia, contou com figurinos de Flávio Império).

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Os Sertões [2000-2007]. Fotos: Maurício Shirakawa/Divulgação Casa de Acervo Oficina.

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Parece muita informação? Pois tem ainda mais. O imenso volume de peças do acervo pede uma cuidadosa metodologia de gestão da informação, reunida também em uma plataforma digital, com acesso aberto ao público. No momento em que subimos as escadas, vejo uma arara com o nome de Lina Bo Bardi escrito. Elisete explica: “Era a vontade de Lina que as roupas e objetos de sua casa [estamos falando da famosa Casa de Vidro] fossem doados para o Oficina. Ela não queria que suas coisas fossem parar dentro de um museu, como aconteceu com a sua produção artística em vida. Esse desejo foi atendido por sua irmã, Graziella Bo, que nos procurou com essa doação”, conta, mencionando a relação próxima entre a arquiteta e o fundador da companhia. “Graziella nos falou que quando era menina, ao acordar no meio da madrugada, via o Zé [Celso] e a Lina [Bo Bardi] correndo feito loucos pelo terreno da casa. Eles passavam a noite inteira conversando, desenhando e pintando juntos”. A doação inclui cerca de 90 itens, como peças de roupa (entre elas, um vestido preto de Elsa Schiaparelli) e bijuterias, uma das obsessões de Lina. “Ela ia para a rua, comprava bijoux e, quando chegava em casa, modificava todas as peças. É isso que o Zé [Celso] fazia com as suas peças, transformando-as em figurinos depois.”

 

“Acho que eu também faço parte do acervo”, brincou Cristina Mutarelli no rito de lançamento do projeto, ao final do último ano. Em cartaz no Oficina com a peça Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues, a atriz tem em sua fala um elemento que aponta para o maior trunfo da nova casa: a percepção de que a memória é também uma ferramenta de trabalho viva. E que ela se renova a cada vez que as luzes se acendem e apagam no número 520 da Rua Jaceguai.

  • ZÉ CELSO em O Banquete [2009].

    ZÉ CELSO em O Banquete [2009]. ZÉ CELSO em O Banquete [2009].
  • JÚLIA LEMMERTZ e ZÉ CELSO em montagem de Ham-let [1993].

    JÚLIA LEMMERTZ e ZÉ CELSO em montagem de Ham-let [1993]. JÚLIA LEMMERTZ e ZÉ CELSO em montagem de Ham-let [1993].

Fotos: Acervo Lenise Pinheiro.

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